2012-04-25

Surpresa no Brasil, choque em Portugal

João Carlos Espada, Público, 2012-04-23

Quando se chega a uma certa idade, pensamos que já nada nos vai surpreender. Esse era certamente o meu estado de espírito quando há precisamente duas semanas aterrei em Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Não era a primeira vez que visitava o Brasil, embora fosse a primeira visita a Porto Alegre, e não havia motivo para esperar grandes surpresas. Mas enganei-me redondamente e, ainda agora, no rescaldo da viagem, tenho dificuldade em ordenar o turbilhão de impressões que esta viagem me deixou.
Não foi o samba, nem o Carnaval, nem as praias de que habitualmente se fala - e que, aliás, não vi. Foi uma sociedade civil vibrante, em perpétuo movimento, com uma energia empreendedora que só tem paralelo nos EUA (e talvez na China e na Índia, mas devo admitir que não senti aí a mesma energia).
Assisti a um congresso de dois dias com 5200 pessoas. Era a 25.ª edição do Fórum da Liberdade, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais, e que teve lugar na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Parecia que estávamos em Nova Iorque ou Washington. Uma organização ultraprofissional, amaciada pela incrível simpatia brasileira. Milhares de pessoas aprumadas, devidamente vestidas, pontuais, alegres e bem-educadas. Uma universidade com 30 mil alunos, num único campus, uma verdadeira cidade, que não recebe um real do Estado.
E, sobretudo, o que diziam, era inacreditável o que diziam. Celebravam a democracia e a liberdade, os direitos da pessoa humana e, por essas razões, o livre empreendimento, a limitação do Estado, o combate à corrupção e ao compadrio promovido por dinheiros públicos. Enalteciam a livre concorrência, não pediam subsídios ao Estado, combatiam os subsídios do Estado e o favorecimento pelo Estado de umas empresas em detrimento de outras. Exigiam impostos baixos e concorrência no fornecimento dos serviços públicos, sobretudo na educação e na saúde.

Era bom de mais para ser verdade. Mas era verdade. Simultaneamente, estas pessoas não mostravam qualquer sinal de arrogância. Exprimiam o maior apreço por Portugal, embora os seus antepassados não fossem apenas portugueses, mas também polacos, italianos, alemães e japoneses, além de índios e africanos, entre muitos outros. Um verdadeiro melting pot, com uma matriz portuguesa que todos enfatizavam. Ouvi vibrantes elogios aos descobridores portugueses, ao seu espírito de tolerância, maior do que o dos anglo-saxónicos, disseram-me, e sempre, repetidamente, à língua de Portugal.

Estas pessoas, ou algumas delas com quem falei demoradamente, querem reforçar a competitividade do Brasil no mundo e regulam os seus padrões pelos da América do Norte. Mas querem reforçar os laços com Portugal. Surpreendem-se por ser mais fácil obter dupla cidadania com Itália do que com Portugal. Gostariam que houvesse um mercado único entre Brasil e Portugal, semelhante ao que existe na União Europeia. Preconizam o mútuo reconhecimento imediato de diplomas escolares e de empresas. Gostariam de ter mais facilidade em investir aqui e de trabalhar aqui. "Há 190 milhões de falantes de português no Brasil", explicaram-me, "que têm apreço por Portugal. Muitos gostariam de educar os filhos em Portugal, de investir em Portugal, de passar parte das suas reformas em Portugal. Não será este um mercado excitante para os portugueses?"
Parece-me que sim, eu pelo menos saí do Brasil contagiado pela energia criativa e empresarial do Rio Grande do Sul. Mas, quando aterrei em Lisboa, tive o primeiro choque lusitano, depois da agradável surpresa brasileira. Na primeira banca de jornais, uma revista de grande circulação titulava na capa: "Precisamos de um novo 25 de Abril?" Não pude acreditar. Temos uma democracia e perguntam se precisamos de um golpe de Estado? Terei chegado por engano à Guiné?

Não foi engano. Passa-se os olhos pelos jornais e vê-se uma cacofonia de reclamações igualitárias, reclamações de mais Estado, mais subsídios, mais garantias. O pobre Governo debaixo de fogo pelas tímidas medidas reformadoras que tem tomado - em vez de lhe reclamarem uma drástica descida dos impostos e um vigoroso convite ao investimento externo. Os nossos jovens fogem para o estrangeiro em busca de oportunidades, e os que ficam querem enterrar ainda mais o país, atacando os mercados, um inexistente neoliberalismo, os alemães e outros europeus empreendedores que viraram bodes expiatórios da nossa paralisia.
Pobre país, receio ter de dizer. Mas amanhã regresso à Polónia, cujo Presidente, aliás, nos acaba de visitar com grande sucesso. Lá reencontrarei a confiança na livre iniciativa que me surpreendeu no Brasil - e cuja ausência é simplesmente chocante em Portugal.

2012-04-23

Problemas de elefante

João César das Neves, DN, 2012-04-23

Ainda alguém acredita que vêm aí as tão anunciadas reformas estruturais? Somos cada vez menos, porque a realidade tem sido impiedosa para essa crença. Uma notícia do passado dia 10 pulverizou as pequenas esperanças que ainda havia. Este Governo, como os anteriores, fala bem mas, depois de rearranjar a mobília, acaba gerindo o sistema de sempre.
Parece incrível, mas foi anunciado um novo Fundo de Saúde e Segurança Alimentar. Segundo as notícias, a entidade destina-se a "compensar os produtores, no quadro da prevenção e erradicação das doenças dos animais e das plantas, bem como das infestações por parasitas", além de "apoiar as explorações pecuárias" e "incentivar o desenvolvimento da qualidade dos produtos agrícolas". Será financiado por uma nova Taxa de Saúde e Segurança Alimentar, paga pelos estabelecimentos de comércio do sector.
Qualquer que seja o resultado, o simples anúncio mostra como o actual Governo ignora totalmente o problema do país. Não percebeu ainda que ele é a doença e o parasita. Esta proposta é precisamente o oposto do necessário para combater a crise e relançar o crescimento. O Estado estrangula consumidores e comércio para juntar dinheiro que atribuirá, com critérios burocráticos, às empresas que lhe apetecer. Em vez de emagrecer o aparelho, incha-o. Não desregulamenta, aperta. Não liberaliza, intervém. Sócrates certamente aplaudirá de pé. Foi a golpes desses, sempre virtuosos e bem intencionados, que ele e os antecessores conduziram o país à crise.
Ao longo das últimas décadas o Estado português transformou-se num enorme elefante numa loja de porcelana. Cada vez que se mexe, estilhaça empresas, iniciativas, investimentos. O gigantesco sistema intervém em todo o lado, a propósito de tudo e de nada. Depois espanta-se pela estagnação.
Quando se diz isto por cá, aparecem sempre os grupos protegidos a fazer a suprema acusação de "neoliberal". Mas não conseguem ver a evidência? Se alguém ficar quieto e inactivo é recompensado com subsídios, apoios, formação. Mas se tiver iniciativa, criar uma empresa, estabelecer um negócio, é imediata e impiedosamente perseguido e castigado. Impressos, impostos, fiscais e regulamentos, exigências, minúcias, imposições e arbitrariedades chovem sobre ele, como punição pelo atrevimento de produzir. Em particular, a ameaça é dirigida às pequenas empresas. As grandes podem contratar um exército de funcionários que, sem produzir nada, se dedica a gerir e acatar as exigências públicas. Às microempresas resta-lhes apenas fechar ou cair na clandestinidade.
Claro que o elefante que as esmaga também cria imensas medidas de apoio e promoção às PME, como a anunciada. Que apenas engordam o elefante com mais impressos e regulamentos, aplicados por mais fiscais e impostos. Tudo para mostrar um carinho atento e minucioso à vida empresarial. A quem é negada apenas a liberdade para actuar no mercado e produzir bens e serviços para quem deles necessita.
Isto mesmo é dito por todos os Governos estreantes, para explicar a razão do fiasco fragoroso dos antecessores. Há décadas que a filosofia das reformas estruturais inspira os sucessivos Programas de Governo, anunciando medidas de desburocratização e abertura para acabar de vez com o estrangulamento económico. Hoje, ao Programa juntam-se as juras à troika, que impôs medidas de liberalização e desregulamentação em todos os sectores. Depois vem a vida quotidiana da governação, que exige satisfazer multidões de fiscais, burocracias, interesses e favores. Depois surge a necessidade de anunciar novas medidas e programas, mais fundos e regras. Depois o elefante põe-se de novo a mexer, e recomeça a enxurrada de cacos de porcelana. Se o Estado não pode ir embora e não consegue emagrecer, ao menos fique quieto, e a loja sobreviverá.
Uma imagem capta especialmente bem o contributo das políticas de desenvolvimento das últimas duas décadas. Os ministros fazem como o elefante que pisa uma perdiz e depois vai cheio de remorsos sentar-se no ninho para chocar os ovos.

2012-04-20

Passinhos curtos e firmes...

Aura Miguel, RR on-line, 2012-04-20

Os que pensaram em Ratzinger como um Papa de transição enganaram-se.
Falta pouco mais de um mês para Bento XVI se reunir em Milão com famílias do mundo inteiro e, pouco depois, em Setembro, o Papa deverá visitar o martirizado Líbano, paredes meias com a Síria ensanguentada.

A agenda deste oitavo ano de Pontificado não fica por aqui. Só neste ano de 2012, ainda se prevê um sínodo com bispos do mundo inteiro sobre Nova Evangelização e, em Outubro, será também proclamado o Ano Especial da Fé.

Os que pensaram em Ratzinger como um Papa de transição enganaram-se. Gradualmente, Bento XVI segue em frente, apesar da barca de Pedro estar ainda em pior estado do que aquilo que ele pensava quando foi eleito.

Como referia, ontem mesmo, o diário “El Mundo”, este "Papa de passinhos curtos e firmes” não hesitou em “pegar na vassoura e varrer as maçãs podres do clero pedófilo e as ervas daninhas entranhadas no Banco do Vaticano”...

Um Papa centrado no essencial da fé, “que não perde tempo em floreados” e que, sendo um dos Papas mais cultos e intelectuais da história da Igreja, é, sobretudo, um Papa humilde, capaz de oferecer ao mundo a Verdade de Deus.

2012-04-05

bye RGC

Recebi a notícia da morte súbita do Prof. Rui Crespo, um dos "terrores" da LEIC nos anos 90.

"
Cumpre-me o doloroso dever de informar a Escola do falecimento do Professor Rui Gustavo Crespo.

As últimas homenagens serão prestadas na Igreja de Benfica, a partir das 16h00 de hoje.
A cremação realizar-se-á amanhã, dia 5 de Abril, às 14h00 no Cemitério do Alto de S. João. O funeral saírá da Igreja de Benfica às 13h00.


IST, 4 de Abril de 2012

O Presidente do IST

Prof. Arlindo Oliveira
"

O Crespo foi um dos Professores mais marcantes que tive em todo o curso, por boas e por más razões.
Olhando hoje para trás, só me lembro das boas :)

2012-03-19

Melhoria na Educação na Flórida

João César das Neves, DN, 2012-03-19

O método seguiu cinco passos: "Primeiro, a Florida começou a classificar as escolas de A a F, segundo a capacidade e progresso dos alunos em testes anuais de leitura, escrita, matemática e ciência. O estado dá dinheiro adicional às escolas que têm A ou melhoram a sua classificação, e os alunos das escolas que tenham dois Fs em quatro anos podem transferir-se para escolas melhores. Segundo, a Florida deixou de permitir que os alunos do terceiro ano que mal consigam ler passem para o quarto (prática comum em toda a América, chamada "promoção social"). Terceiro, criou um sistema de pagamento de mérito, no qual os professores cujos alunos passem certos exames recebem bónus. Quarto, dá aos pais muito mais escolha, com cheques estaduais, entre escolas públicas, convencionadas, privadas e até online. Quinto, a Florida criou novos métodos de certificação para atrair pessoas mais talentosas para a profissão, mesmo que essas pessoas não tenham um grau académico específico em educação" (The Economist, 25/Fev, p. 41; ver o site da fundação do ex-governador, www.excelined.org).

2012-03-17

Educar

Educar, em qualquer idade, é fazer crescer.

-- Maria Ulrich

2012-03-16

Textos da Via Sacra da Jornada Mundial da Juventude, Madrid 2011, em Português

Alocução do Papa Bento XVI

VIA SACRA JMJ 2011

Neste momento de oração, acompanharemos Cristo no percurso que Ele fez até ao Calvário para ser crucificado.
Avivaremos o nosso amor, acompanhando de perto o Senhor. Guardaremos profundo silêncio exterior e na nossa mente, não dando guarida a pensamentos estranhos a esta piedosa contemplação.
Assumiremos uma atitude de profunda humildade e, pedindo a sua graça, reconheceremos que não somos dignos de “entrar no seu coração” para pensar como Ele, sentir como Ele e viver com Ele o Mistério da dor que suportou na sua própria carne, pagando pelos pecados da humanidade.
Teremos presentes todos os jovens do mundo que são vítimas de injustiças, perseguição, marginalização, maus tratos, pobreza, escravidão, humilhação… e aos quais Jesus diz que não estão sós, pois Ele assume a sua dor e caminha a seu Iado.lado.

Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos que Eu vos aliviarei (Mt 11, 28)

(no início de cada estação)
Nós Vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.

1ª Estação - Última Ceia de Jesus com os seus discípulos
Tomou, então, o pão e, depois de dar graças, partiu-o e distribuiu-o por eles, dizendo: «Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei Isto em minha memória.» Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: «Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós.» (Lc 22, 19-20).
Antes de pegar no pão, Jesus acolhe com amor todos os que estão sentados à mesa. Sem excluir nenhum: nem o traidor, nem o que vai negar, nem os que vão fugir. Escolheu-os como novo povo de Deus. A Igreja, chamada a ser una.
Jesus morre para congregar os filhos de Deus que andavam dispersos (Jo 11, 52). Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em Mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só (Jo 17, 20-21). 0 amor fortalece a unidade. E diz-lhes: Que vos ameis uns aos outros (Jo 13,34). 0 amor fiel é humilde: Também vós deveis lavar os pés uns aos outros (Jo 13, 14)
Unidos na oração de Cristo, oremos para que na Terra do Senhor a Igreja viva unida e em paz, cesse toda a perseguição e discriminação por causa da fé, e todos os que crêem num único Deus vivam em justiça a fraternidade até que Deus nos conceda sentar-nos ao redor da sua única mesa.

2ª Estação - O beijo de Judas
E molhando o bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. (Jo 13,26). Aproximou-se... e beijou-o. Jesus respondeu-lhe: «Amigo, a que vieste?» (Mt 26, 49-50).
Na Ceia respira-se um ar de Mistério sagrado. Cristo está sereno, pensativo, a sofrer. Ele dissera: “Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer” (Lc 22, 15). E agora, a meia voz, deixa escapar um sentimento mais profundo: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!” (Jo 13, 21).
Judas sente-se mal, a sua ambição mudou “à custa da traição” ao Deus do Amor pelo ídolo do dinheiro. Jesus olha para ele e ele desvia o olhar. Chama-o à atenção oferecendo-lhe pão ensopado no molho. E diz-lhe: “O que tens a fazer fá-lo depressa.” (Jo 13, 27). 0 coração de Judas tinha-se fechado e foi contar o dinheiro para depois entregar Jesus com um beijo. E Cristo, ao sentir o beijo frio do traidor, não lho censura, diz-lhe: “Amigo”.
Se sentes na tua carne o frio da traição, ou o terrível sofrimento provocado pela divisão entre irmãos e a luta fratricida, entrega-te a Jesus, que no beijo de Judas fez Suas as traições dolorosas.

3ª Estação - Jesus condenado à morte
“É réu de morte” (Mt 26, 66).
“Então, entregou-o para ser crucificado” (Jn 19, 16).
A maior injustiça é condenar um inocente indefeso. E um dia a maldade julgou e condenou à morte a inocência. Porque condenaram Jesus? Porque Jesus fez Sua toda a dor do mundo. Ao incarnar, assume a nossa humanidade e, com eia, as feridas do pecado. Carregou corn o crime deles (Is 53,11), para nos curar pelo sacrifício da cruz. Como homem de dores, habituado ao sofrimento (Is 53, 3), entregou a sua vida à morte (Is 53, 12). 0 que mais impressiona é o silêncio de Jesus. Não se desculpa, é o Cordeiro de Deus, que tira o peca do do mundo (Jo 1, 29), foi açoitado, esbofeteado, sacrificado. Emudecia e não abria a boca (Is 53, 7).
No silêncio de Deus estão presentes todas as vítimas inocentes das guerras que arrasam os povos e os enchem de ódios difíceis de curar. Jesus cala-se no coração de muitas pessoas que em silêncio esperam a salvação de Deus.

4ª Estação - Negação de Pedro
Darás a tua vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem tu me haveres negado por três vezes (Jo 3, 38).
E, vindo para fora, chorou amargamente (Lc 22, 62).
Um cristão tem de ser corajoso. E ser corajoso não significa não ter medo, mas vencer o medo. O cristão corajoso não se esconde por vergonha de manifestar em público a sua fé. Jesus advertiu Pedro: “Satanás reclamou-vos para vos joeirar como trigo. Mas Eu roguei por ti” (Lc 22, 31). “Digo-te, Pedro, o galo não cantará hoje sem que, por três vezes, tenhas negado conhecer-Me”(Lc 22,34). E o apóstolo, por medo de uma criada, negou-O dizendo: “Não O conheço” (Lc 22, 57). Ao passar Jesus por um dos pátios, olha para ele..., que estremece ao recordar as suas palavras... e chora amargamente a sua traição. O olhar de Deus muda o coração. Mas é preciso deixar-se olhar.
Ao olhar para Pedro, o Senhor olhou para os cristãos que se envergonham da sua fé, que têm respeito humano e falta de coragem para defender a vida desde o seu início até ao seu fim natural, ou querem sentir-se bem com critérios não evangélicos... para que como Pedro recuperem a coragem e sejam testemunhas convictas daquilo em que acreditam.

5ª Estação - Jesus leva a cruz às costas
Depois de terem escarnecido d’Ele, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Levaram-n’O, então, para O crucificarem (Mc 15, 20).
E carregando a cruz às costas, saiu para o chamado lugar do Calvário (Jo 19,17).
Cruz não significa apenas madeiro. Cruz é tudo aquilo que torna difícil a vida. Entre as cruzes, a mais profunda e dolorosa está arraigada no interior do homem. É o pecado que endurece o coração e perverte as relações humanas. Porque do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias (Mt 15, 19). A cruz que Jesus carregou aos ombros para nela morrer é o peso de todos os pecados de todos os homens. Também os meus. Ele suportou os nossos pecados no seu corpo (1Pe 2, 24). Jesus morre para reconciliar os homens com Deus. Por isso torna “Redentora” a cruz. Todavia a cruz só por si não nos salva. Salva-nos o “Crucificado”.
Ele fez Seu o cansaço, o esgotamento, o desespero dos que não encontram trabalho. Dos imigrantes que recebem salários indignos ou desumanos, que sofrem atitudes racistas ou morrem na ânsia de conseguir uma vida mais justa e humana.

6ª Estação - Jesus cai sob o peso da cruz
Triturado pelos nossos crimes (Is 53, 5).
Jesus caiu várias vezes sob o peso da cruz a caminho do Calvário (Tradição da Igreja de Jerusalém).
A Sagrada Escritura não faz referência às quedas de Jesus, mas e logico que perdesse o equilíbrio muitas vezes, devido à perda de sangue provocada pelos ferimentos dos azorragues e às dores musculares insuportáveis. A tortura da coroa de espinhos, o peso do madeiro... não há palavras! Todos temos experiência de ter tropeçado e caído ao chão. Com que rapidez nos levantamos para não dar espectáculo ridículo! Contempla Jesus no chão e todos ao seu redor a fazer troça e a dar alguns pontapés para que Se levantasse sozinho. Que ridículo, que humilhação, meu Deus! Diz o Salmo: Mas eu sou um verme e não um homem, vergonha da gente, desprezo do povo; ao ver-me fazem troça de mim, fazem caretas, abanam a cabeça (Sal 22, 7-8).
Jesus sofre com todos aqueles que tropeçam na mesma pedra e caem sem forças vítimas do álcool, da droga e de outras dependências que os escravizam, para que, apoiados n’Ele e naqueles que os ajudam, possam levantar-se.

7ª Estação – O Cireneu ajuda a levar a cruz
Quando O levavam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo (Lc, 23, 26).
e obrigaram-no a levar a cruz de Jesus (Mt 27, 32).
Simão era um jovem e forte agricultor que vinha de trabalhar no campo. Obrigaram-no a levar a cruz do Senhor, não por compaixão mas por medo de que morresse no caminho. Simão oferece resistência, mas a imposição por parte dos soldados era radical. Teve de aceitar à força. Em contacto com Jesus, vai mudando a atitude do seu coração e termina partilhando a situação daquele desconhecido condenado que em silêncio leva um peso superior às suas débeis forças. É muito importante para os cristãos descobrir o que acontece a seu lado e dar-se conta das pessoas que necessitam de nós!
Jesus sentiu-Se aliviado com a ajuda do Cireneu. Milhares de jovens de todas as raças, de qualquer condição social e religião, marginalizados pela sociedade, encontram diariamente cireneus generosos que sabem abraçar a cruz com abnegação e caminhar com eles.

8ª Estação - A Verónica limpa o rosto de Jesus
Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos (Lc 23.2 7-28).
O Senhor guarda-o e conserva-lhe a vida, para que seja ditoso na terra, e não o entrega ao ódio dos seus inimigos (Sal 41, 3).
Seguia-O uma multidão de povo e um grupo de mulheres que batiam no peito e se lamentavam chorando. Jesus voltou-Se e disse-lhes: Não choreis por Mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos. Chorai, não com lágrimas de tristeza que endurece o coração e o predispõe a cometer novos crimes… chorai lágrimas piedosas de súplica ao céu, pedindo misericórdia e perdão. Unia das mulheres, como vida ao ver o rosto de Jesus cheio de sangue, de terra e de cuspidelas, passou corajosamente pelo meio dos soldados e chegou junto d’Ele. Tirou o lenço e limpou-Lhe a face com delicadeza. Um soldado afastou-a com brutalidade, mas, ao ver o lenço, reparou que tinha impresso o rosto ensanguentado e doloroso de Cristo.
Jesus tem pena das mulheres de Jerusalém e no pano da Verónica deixa impresso o seu rosto, que evoca o de tantos homens que foram desfigurados por regimes ateus que destroem a pessoa e a privam da sua dignidade.

9ª Estação - Jesus é despojado das suas vestes
Crucificaram-n’O e repartiram entre si as suas vestes deitando-as à sorte (Mc 15, 24).
Desde a planta do pé até ao alto da cabeça não há nele nada são (Is 1,6).
Enquanto preparam os cravos e as cordas para O crucificar, Jesus permanece de pé. Um soldado sem piedade aproxima-Se e, dando um puxão pela túnica, tira-Lha. Os ferimentos começaram a sangrar de novo causando-Lhe uma dor terrível. Depois repartiram entre si as suas vestes. Jesus fica nu diante da plebe. Como se fosse um objecto de troça, despojaram-n’O de tudo. Não há maior humilhação nem maior desprezo. Ficou sem nada. As vestes não cobrem só o corpo, mas também o que uma pessoa leva, a sua intimidade, a sua dignidade. Jesus passou por esta humilhação porque carregou com todos os pecados contra a integridade e a pureza e morreu uma só vez para tirar os pecados de todos (Heb 9, 28).
Jesus padece com todos os sofrimentos das vítimas de genocídios humanos, com a violência brutal desenfreada, as violações e abusos sexuais, os crimes de crianças e de adultos. Quantas pessoas despojadas da sua dignidade da sua inocência, da sua confiança no homem.

10ª Estação - Jesus é pregado na Cruz
E quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n’O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda (Lc 23, 33).
Tinham conduzido Jesus até ao Gólgota. Não ia só, acompanhavam-n’O dois ladrões que também seriam crucificados. Crucificaram-n’O; e, com Ele, mais dois: um de cada lado e Jesus no meio (Jo 19, 18). Que imagem incrível! O cordeiro que tira o pecado do mundo faz-se pecado e paga pelos demais. O grande pecado do mundo é “a mentira de Satanás”. E Jesus é condenado por declarar a Verdade de que é o Filho de Deus. A verdade é o argumento para justificar a crucifixão. Impossível descrever o que padeceu fisicamente o corpo de Jesus pregado na cruz. Moralmente, ao ver-se despido e crucificado entre dois malfeitores; e, senti mentalmente, ao ver-se abandonado pelos seus.
Jesus na cruz acolhe o sofrimento de todos os que vivem pregados a situações dolorosas, como tantos pais e mães de família, e tantos jovens que, por falta de trabalho, vivem na precariedade, na pobreza e desespero, sem os recursos necessários para levar por diante as suas famílias e ter uma vida digna.

11ª Estação - Jesus morre na cruz
Jesus exclamou, dando um grande grito: “Pa j, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Dito isto, expirou (Lc 23, 46).
Ao chegarem a Jesus, vendo’O já morto, não Lhe quebram as pernas (Jo 19, 33).
Era sábado, o dia da preparação para a festa da Páscoa. Pilatos autorizou que lhes quebrassem as pernas para apressar a morte e não ficarem pregados durante festa. Jesus já estava morto e um soldado, para se certificar, trespassou-Lhe o coração com uma lança. E assim se cumpriram as escrituras. Então entregou-lh’O para O crucificarem (Jo 19,16). O sol obscureceu-se e o véu (lo Templo rasgou-se ao meio. Tremeu a terra... É o momento sagrado da contemplação. É momento de adoração... de colocar-se perante o corpo do nosso Redentor: sem vida, vilipendiado, triturado, pregado... pagando o preço das nossas maldades, “das minhas maldades”... Senhor, pequei, tem misericórdia de mim, pecador! Ámen.
Jesus morre por mim. Jesus alcança-me a Misericórdia do Pai. Jesus paga tudo o que devia. Que faço eu por Ele? Perante o drama de tantas pessoas crucificadas por tantas injustiças, luto para defender e proclamar a dignidade da pessoa e o evangelho da Vida

12ª Estação – Jesus é descido da Cruz
Pilatos mandou que lh’O entregassem (Mt 27, 57).
José, tomando o corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo (Mt 27, 59).
Aproximemo-nos de Nossa Senhora e tomemos parte na sua dor. Cristo morreu e é preciso retirá-l’O da cruz. Que passaria pela sua mente? Quem mo tirará? E repetiria de novo como em Nazaré: Faça-se! Mas agora mais unida à entrega incondicional de seu Filho. “Tudo está consumado’ Então apareceu José de Arimateia e Nicodemos que, embora pertencentes ao Sinédrio, não tinham tomado parte na morte do Senhor e tinham pedido a Pilatos o corpo do Mestre a fim de o colocar num sepulcro novo da sua propriedade, muito próxima do Calvário.
Cristo fracassou, fazendo seus todos os fracassos da humanidade. O filho do Homem foi eliminado, partilhando asorte daqueles que por diferentes razões foram considerados a escória da humanidade por não saberem, não poderem,não valerem. São, entre outros, as vítimas da Sida, que, com as chagas da sua cruz, esperam que alguém se ocupe deles.

13ª Estação - Jesus é entregue a sua Mãe
Uma espada trespassará a tua alma (Lc 2, 34).
Vede se há dor semelhante à minha (Lam 2, 12).
Embora todos sejamos culpados da morte de Jesus, nestes momentos tão dolorosos a Virgem Maria necessita do nosso amor e proximidade. A nossa consciência de pecado res arrependidos servir-Lhe-á de consolação. Numa atitude filial coloquemo-nos a seu lado, aprendamos a receber Jesus com a ternura e amor com que Ela recebeu em seus braços o corpo maltratado e sem vida de seu Filho. Haverá dor semelhante à minha? E enquanto preparavam o corpo do Senhor para lhe dar sepultura, “segundo a maneira de sepultar em uso entre os judeus” (Jo 19, 40), Maria, adorando o Mistério que tinha guardado no seu coração sem o compreender, repetiria comovida com o profeta: “Meu povo, que tefiz eu? Em que te contristei? Responde-me!” (Miq 6, 3).
Ao contemplar a dor de Maria, fazemos memória da dor e soledade de tantos pais e mães que perderam os seus filhos devido à fome, enquanto sociedades opulentas, dominadas pelo dragão do consumismo, da perversão materialista, se afundam no absurdo de vidas vazias.

14ª Estação - Jesus é sepultado
Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus. (Jo 19, 42).
José de Arimateia rolou uma grande pedra para a porta do túmulo e retirou-se. (Mt 27, 60).
Devido à proximidade da festa, apressaram-se a preparar o corpo do Senhor para o colocar no sepulcro oferecido por José de Arimateia e Nicodemos. O sepulcro era novo, ninguém tinha sido sepultado nele. Uma vez colocado o corpo sobre a rocha, José mandou rolar a pedra da porta, ficando totalmente fechada a entrada. Se o grão de trigo não morrer... E despois do ruído da pedra ao fechar a entrada do sepulcro, Maria, no silêncio de uma soledade impressionante aperta a espiga que já leva no seu coração como primícias da ressurreição.
Nesta espiga recordamos o trabalho humilde e sacrificado de tantas vidas gastas numa entrega sacrificada ao serviço de Deus e do próximo que esperam a sua fecundidade unidas à morte de Jesus. Aos bons samaritanos, que aparecem em qualquer recanto da terra para partilhar as consequências das forças descontroladas da natureza: terramotos, furacões, tsunamis...