P. Gonçalo Portocarrero de Almada - 4/9/2014
Observador
Um pregador católico inglês, do século passado, escandalizou os seus fiéis ao dizer que era mais provável que a alguém lhe roubassem a carteira numa igreja católica do que num templo anglicano. Inquirido sobre a sua falta de fé na honestidade dos irmãos da sua própria Igreja, esclareceu que, enquanto a Igreja anglicana é só para pessoas respeitáveis, a romana, precisamente porque é católica, ou seja universal, é para todo o tipo de pessoas, ladrões incluídos.
Alguns fiéis aceitam mal esta abertura, que consideram permissiva em demasia. E, por isso, em tempos de crise generalizada da fé e dos bons costumes, optam por se isolarem em pequenos grupos, evitando o pecaminoso contágio e afastando-se dos outros fiéis, não tão exemplares na ortodoxia ou na virtude. Em nome de uma Igreja dos puros, estes novos cátaros fazem da sua intransigência doutrinal o imperativo principal da sua fé, excluindo os pecadores do seu seio e excluindo-se da unidade eclesial. Esquecem, assim, o amor universal de Cristo, que não só conviveu com pecadores públicos, incorrendo no escândalo dos fariseus do seu tempo, como disse também que as mulheres de má-vida os iriam preceder no reino dos Céus (Mt 21, 31). E não relevam que Jesus, como a propósito de Judas Iscariotes fez notar Santo Agostinho, «aguentou um ‘demónio’ entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70)» (A fé e as obras, 3-5).
Não são só certos crentes que desejam uma Igreja de eleitos, constituída única e exclusivamente por fiéis exemplares. Também os incrédulos se escandalizam quando vislumbram, dentro dos muros dos templos cristãos, homens e mulheres pecadores, como o carteirista do sermão. Quereriam, eles também, uma Igreja sem mancha nem pecado, feita de anjos e não por homens, uma Jerusalém celestial que nada tivesse que ver com as fraquezas deste mundo.
Tanto uns como outros erram, porque se a Igreja é santa na sua origem e finalidade, é e será sempre pecadora nos seus membros terrenos. Assim o disse Cristo quando ensinou que o trigo e o joio devem permanecer juntos até à ceifa final (cf. Mt 13, 29), ou quando comparou o reino dos Céus a uma grande rede de arrasto, que traz consigo todo o tipo de peixes, bons e maus (Mt 13, 47-52). A Igreja de Cristo não está chamada a ser um luxuoso condomínio fechado, para exclusivo uso de umas quantas almas selectas, mas um pobre hospital de campanha, sempre de portas escancaradas para os seus filhos pecadores e para todos os homens de boa vontade. Os odores de santidade são para o outro mundo porque neste, mais do que as boas obras dos virtuosos, é a pestilência das doenças físicas e morais dos arrependidos o incenso com que Deus quer ser glorificado nos seus templos. Ele não veio ao mundo para os sãos, mas para os enfermos (Mc 2, 17) e é maior a sua alegria por um pecador que se converta, do que por noventa e nove justos que perseverem no bem (Lc 15, 1-7).
Vale mais a unidade da Igreja e a sua solidariedade com os pecadores do que esse rigorismo doutrinal, contrário à caridade apostólica. A tentação dos falsos purismos exclusivistas e sectários não é só de agora, porque também Santo Agostinho denunciou, no seu tempo, as «pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam (…) que se ‘tratem como aos publicanos’ aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30)» (id.). Era também este santo doutor quem assim vituperava, energicamente, contra esses falsos pastores: «o seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo» (id.).
O bem da comunhão deve prevalecer sobre qualquer outro bem, porque a caridade é o mandamento novo de Cristo (Jo 13, 34-35), a principal das virtudes cristãs (1Cor 13, 13) e a razão da esperança na salvação de todos os homens, sem excepção. «Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração pensamentos presunçosos – adverte o santo bispo de Hipona – em não procurarmos destacar-nos dos pecadores, para não nos sujarmos com o seu contacto, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não frequentarmos os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade» (id.).
Há quem se escandalize por encontrar, na Igreja católica, pessoas cristãs que têm dúvidas de fé, ou que atentaram contra a vida dos seus filhos por nascer, ou que esmoreceram na esperança, ou que vivem em uniões não abençoadas pela Igreja, ou que não conseguem ainda amar e perdoar o próximo, ou que seguem tendências contrárias ao uso natural do corpo, ou que são alcoólicas, ou drogadas. Confesso que rejubilo com essas benditas presenças, em que abunda o pecado e sobreabunda a esperança, não só porque são almas predilectas de Deus – as ovelhas pelas quais vale a pena deixar todo o rebanho – mas, sobretudo, porque me sinto confirmado na unidade e catolicidade da minha fé eclesial.
Groucho Marx disse que jamais aceitaria fazer parte de um clube que admitisse pessoas como ele. Eu, pelo contrário, nunca poderia pertencer a uma Igreja que não recebesse pecadores como eu.
2014-09-04
2014-09-01
Combater a desigualdade ou a pobreza?
JOÃO CARLOS ESPADA - Público - 25/08/2014
Na presente série de "leituras em férias", o livro de hoje é um best-seller da Amazon: Capital in the Twenty-First Century, do francês Thomas Piketty. São 685 páginas, densamente povoadas por gráficos e uma cerrada argumentação sobre o crescimento das desigualdades no ocidente desde a década de 1970.
A obra tem gerado abundante controvérsia, incluindo um editorial (crítico) e chamada de primeira página em The Economist, vários artigos (contra e a favor) no Financial Times. Para um modesto estudioso de teoria política, todos estes assuntos são motivo de admiração — a prudente distância. A obra é certamente admirável, pelo volume de evidência empírica que mobiliza. No entanto, receio ter de confessar que não estou seguro de ter compreendido o simples problema de partida que ele se propõe tratar: a magna questão da desigualdade.
Basicamente, é-nos dito que as desigualdades estão a aumentar no Ocidente e que estas devem ser corrigidas, sobretudo através de fortes impostos "globais" sobre os rendimentos do capital. Mas não é explicado por que motivo é a desigualdade um problema, nem por que motivo a igualdade (e que tipo de igualdade) seria preferível à desigualdade. (Há umas vagas e insistentes referências a "desigualdades democráticas", fundadas no mérito, e "não democráticas", fundadas em "rendas"). Por outras palavras, o livro parte de um dogma, que pode ser inteiramente acertado: o dogma de que a desigualdade é má. Mas não explica por que razão devemos aceitar esse dogma.
Este dogma é apresentado como auto-evidente. Tão auto-evidente que as grandes controvérsias económicas ter-se-iam centrado nele. O autor recorda duas perspectivas rivais: o pessimismo de Marx, que previa uma inevitável bipolarização entre ricos e pobres; e o optimismo de Kuznets, que previa uma natural redução das desigualdades através das forças de mercado. Diz que nenhum tinha razão, embora Marx pareça ter estado mais perto de Piketty.
Com o devido respeito, deve ser recordado que a discussão sobre a desigualdade não se resume ao confronto entre previsões sobre a sua provável evolução. Existe uma vasta tradição de reflexão crítica sobre o dogma de que a desigualdade de resultados é intrinsecamente condenável — e ela está ausente neste livro.
Em rigor, esse dogma é dificilmente sustentável — se for aceite o princípio da igual liberdade perante a lei (o que significa, entre outras coisas, ausência de protecção política discricionária a rendas de situação). Indivíduos igualmente livres vão poder agir diferentemente. Dessas diferentes acções, resultarão diferentes resultados. Logo, da liberdade igual perante a lei — um princípio crucial do Estado de direito — resulta a desigualdade de resultados.
Isto significa que uma presunção da liberdade implica uma presunção da desigualdade. Em alternativa, uma presunção da igualdade (como obviamente é a preferência de Thomas Piketty) implica uma negação da presunção da liberdade. É certamente possível negar a presunção da liberdade — mas é preciso dizê-lo abertamente, além de o justificar, o que não é o caso neste livro.
Na verdade, é possível argumentar que o imperativo moral prioritário reside no combate à pobreza, não no combate à desigualdade, e na criação de redes de segurança para todos, abaixo das quais ninguém deve recear cair. Muitos autores têm mesmo argumentado que os dois não são compatíveis: ou se combate a pobreza e se reforçam redes de segurança para todos, ou se combate a desigualdade — mas, neste último caso, a pobreza aumentará. Entre muitos autores, David Hume foi talvez quem captou esta escolha de forma mais cortante:
"Por mais igual que se torne a distribuição da riqueza, os diferentes graus de arte, interesse e indústria dos homens destruirão imediatamente essa igualdade. Ou, se controlarmos essas virtudes, reduziremos a sociedade à mais extrema indigência; e, em vez de evitarmos a necessidade e a penúria em alguns indivíduos, torná-las-emos inevitáveis para toda a comunidade. Será necessária também a mais rigorosa inquirição para detectar todas as desigualdades assim que elas surjam, bem como a mais severa jurisdição para as punir e corrigir" (An Enquiry Concerning the Principles of Morals, 1777).
Julgo que o (a mais do que um título) saudoso Ronald Reagan teria gostado deste livro de Piketty. Ele ilustra, com muito "mérito democrático", a visão política que Reagan sempre criticou: "If it moves, tax it. If it keeps moving, regulate it. And if it stops moving, subsidize it."
Na presente série de "leituras em férias", o livro de hoje é um best-seller da Amazon: Capital in the Twenty-First Century, do francês Thomas Piketty. São 685 páginas, densamente povoadas por gráficos e uma cerrada argumentação sobre o crescimento das desigualdades no ocidente desde a década de 1970.
A obra tem gerado abundante controvérsia, incluindo um editorial (crítico) e chamada de primeira página em The Economist, vários artigos (contra e a favor) no Financial Times. Para um modesto estudioso de teoria política, todos estes assuntos são motivo de admiração — a prudente distância. A obra é certamente admirável, pelo volume de evidência empírica que mobiliza. No entanto, receio ter de confessar que não estou seguro de ter compreendido o simples problema de partida que ele se propõe tratar: a magna questão da desigualdade.
Basicamente, é-nos dito que as desigualdades estão a aumentar no Ocidente e que estas devem ser corrigidas, sobretudo através de fortes impostos "globais" sobre os rendimentos do capital. Mas não é explicado por que motivo é a desigualdade um problema, nem por que motivo a igualdade (e que tipo de igualdade) seria preferível à desigualdade. (Há umas vagas e insistentes referências a "desigualdades democráticas", fundadas no mérito, e "não democráticas", fundadas em "rendas"). Por outras palavras, o livro parte de um dogma, que pode ser inteiramente acertado: o dogma de que a desigualdade é má. Mas não explica por que razão devemos aceitar esse dogma.
Este dogma é apresentado como auto-evidente. Tão auto-evidente que as grandes controvérsias económicas ter-se-iam centrado nele. O autor recorda duas perspectivas rivais: o pessimismo de Marx, que previa uma inevitável bipolarização entre ricos e pobres; e o optimismo de Kuznets, que previa uma natural redução das desigualdades através das forças de mercado. Diz que nenhum tinha razão, embora Marx pareça ter estado mais perto de Piketty.
Com o devido respeito, deve ser recordado que a discussão sobre a desigualdade não se resume ao confronto entre previsões sobre a sua provável evolução. Existe uma vasta tradição de reflexão crítica sobre o dogma de que a desigualdade de resultados é intrinsecamente condenável — e ela está ausente neste livro.
Em rigor, esse dogma é dificilmente sustentável — se for aceite o princípio da igual liberdade perante a lei (o que significa, entre outras coisas, ausência de protecção política discricionária a rendas de situação). Indivíduos igualmente livres vão poder agir diferentemente. Dessas diferentes acções, resultarão diferentes resultados. Logo, da liberdade igual perante a lei — um princípio crucial do Estado de direito — resulta a desigualdade de resultados.
Isto significa que uma presunção da liberdade implica uma presunção da desigualdade. Em alternativa, uma presunção da igualdade (como obviamente é a preferência de Thomas Piketty) implica uma negação da presunção da liberdade. É certamente possível negar a presunção da liberdade — mas é preciso dizê-lo abertamente, além de o justificar, o que não é o caso neste livro.
Na verdade, é possível argumentar que o imperativo moral prioritário reside no combate à pobreza, não no combate à desigualdade, e na criação de redes de segurança para todos, abaixo das quais ninguém deve recear cair. Muitos autores têm mesmo argumentado que os dois não são compatíveis: ou se combate a pobreza e se reforçam redes de segurança para todos, ou se combate a desigualdade — mas, neste último caso, a pobreza aumentará. Entre muitos autores, David Hume foi talvez quem captou esta escolha de forma mais cortante:
"Por mais igual que se torne a distribuição da riqueza, os diferentes graus de arte, interesse e indústria dos homens destruirão imediatamente essa igualdade. Ou, se controlarmos essas virtudes, reduziremos a sociedade à mais extrema indigência; e, em vez de evitarmos a necessidade e a penúria em alguns indivíduos, torná-las-emos inevitáveis para toda a comunidade. Será necessária também a mais rigorosa inquirição para detectar todas as desigualdades assim que elas surjam, bem como a mais severa jurisdição para as punir e corrigir" (An Enquiry Concerning the Principles of Morals, 1777).
Julgo que o (a mais do que um título) saudoso Ronald Reagan teria gostado deste livro de Piketty. Ele ilustra, com muito "mérito democrático", a visão política que Reagan sempre criticou: "If it moves, tax it. If it keeps moving, regulate it. And if it stops moving, subsidize it."
Etiquetas:
economia,
João Carlos Espada,
Opinião,
política
2014-08-26
Obrigado Pe Ruy
ORAÇÃO COLECTA
Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis,
para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis,
para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
2014-08-25
A minha família é a minha casa
José Luís Nunes Martins ionline 2014.08.18
Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama
A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: "tenho vontade de chorar". Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.
A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.
Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...
Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.
Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz?
A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.
Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.
A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.
A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu "tenho vontade de chorar" sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.
A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo.
Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama
A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: "tenho vontade de chorar". Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.
A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.
Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...
Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.
Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz?
A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.
Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.
A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.
A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu "tenho vontade de chorar" sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.
A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo.
2014-08-23
O beicinho
Inês Teotónio Pereira ionline 2014.08.16
O beicinho do meu filho
Quando me zango com o meu filho mais novo ele faz beicinho na esperança de eu me comover; caso eu não me comova e mantenha o sobrolho carregado, ele exibe o seu melhor sorriso na esperança de eu me derreter. Resulta quase sempre e é raro ele precisar de recorrer ao sorriso. O meu filho mais novo tem um ano. A criatura ainda não sabe andar, não fala, nem sequer sabe comer sozinha, mas já é perita em técnicas de simulação e de charme que supostamente requerem muito mais inteligência e esforço mental do que dormir sem chucha. É verdade que ele ainda não me engana redondamente e que todas as vezes que me comovi ou me derreti com o seu beicinho ou sorriso - 97% das vezes, mais ou menos - cedi perfeitamente consciente da minha cedência. E é assim, de cedência em cedência, que a criança vai ficando cada dia mais mimada, mais manipuladora e, claro, insuportavelmente encantadora. Conscientemente mimada. O meu filho percebeu ao fim de 12 meses de existência que a sua vida se pode tornar bastante mais agradável se dominar as referidas técnicas de manipulação. Ele sabe enganar-me e sabe que eu me derreto com as estratégias de engano. Este simples episódio doméstico revela duas evidências: a primeira é que nós pais somos presas fáceis, a segunda é que os nossos filhos são uns manipuladores impiedosos. O pior é que se isto é assim com um ano - repito: ele ainda não sabe falar nem andar - como será quando ele tiver 16?
Nós pais vivemos enganados e somos diariamente enganados pelos nossos filhos. Aldrabados, mesmo. Vivemos enganados porque achamos que os conhecemos melhor que a palma da nossa mão e controlamos na perfeição as suas técnicas de manipulação. Achamos que somos os verdadeiros donos disto tudo e que não há ninguém que nos consiga passar a perna. Estamos convencidos que em nossa casa só nós é que passamos a perna aos nossos filhos, nunca o contrário. Acreditamos ingenuamente que o controlo emocional é nosso. Já a criançada, que desde tenra idade domina as técnicas mais desprezíveis de manipulação, vai-nos dando corda para nos enforcarmos ao mesmo tempo que vai conquistando a nossa cega e inabalável confiança. Eles tornam-se geniais na chantagem emocional, peritos em carregar-nos com o peso dos remorsos e exímios simuladores de personalidades diversas. Nós, pais, vamos facilmente nas cantigas. Até porque gostamos da melodia. E a cantiga dos nossos filhos é como os cigarros: começa por ser só um por semana mas quando damos por nós já estamos a comprar maços diariamente. A cantiga dos filhos também começa apenas com um beicinho mas acaba com a cantiga do bandido segundo a qual a professora é que é má e não sabe ensinar e os amigos é que são os irresponsáveis. E nós pais acreditamos em tudo. Queremos e gostamos de acreditar. Não vivemos sem o beicinho enganador e gostamos de ser convencidos pelos nossos filhos de que eles são bons rebeldes, gente de bem e palavra, valentes e virtuosos, crianças sensíveis e incapazes de matar uma mosca por mal. Gostamos que eles nos convençam que são aquilo que queremos que sejam. E eles sabem qual é o guião. Desde que nasceram que sabem qual é guião. E sabem perfeitamente que se o cumprirem à risca melhor para eles e para nós. Mas não há nada mais maravilhoso que este engano. A nossa ingenuidade, a nossa inabalável confiança, a nossa fé nos metralhas dos nossos filhos é aquilo que nos torna melhores pessoas e a eles melhores filhos. Para nós os defeitos dos nossos filhos são meros acidentes perfeitamente insignificantes e todos eles justificáveis. Aliás, nem são bem defeitos, são características. É por pensarem assim que os pais são as melhores pessoas do mundo: os pais acreditam sempre nos filhos. Sempre. Somos pessoas de uma fé inabalável nas crias. Mesmo que saibamos que estamos completamente enganados. É que estar enganado neste caso é um pormenor: o que verdadeiramente interessa é o beicinho. A maravilha do beicinho e do sorriso encantador. O resto são detalhes mesquinhos.
O beicinho do meu filho
Quando me zango com o meu filho mais novo ele faz beicinho na esperança de eu me comover; caso eu não me comova e mantenha o sobrolho carregado, ele exibe o seu melhor sorriso na esperança de eu me derreter. Resulta quase sempre e é raro ele precisar de recorrer ao sorriso. O meu filho mais novo tem um ano. A criatura ainda não sabe andar, não fala, nem sequer sabe comer sozinha, mas já é perita em técnicas de simulação e de charme que supostamente requerem muito mais inteligência e esforço mental do que dormir sem chucha. É verdade que ele ainda não me engana redondamente e que todas as vezes que me comovi ou me derreti com o seu beicinho ou sorriso - 97% das vezes, mais ou menos - cedi perfeitamente consciente da minha cedência. E é assim, de cedência em cedência, que a criança vai ficando cada dia mais mimada, mais manipuladora e, claro, insuportavelmente encantadora. Conscientemente mimada. O meu filho percebeu ao fim de 12 meses de existência que a sua vida se pode tornar bastante mais agradável se dominar as referidas técnicas de manipulação. Ele sabe enganar-me e sabe que eu me derreto com as estratégias de engano. Este simples episódio doméstico revela duas evidências: a primeira é que nós pais somos presas fáceis, a segunda é que os nossos filhos são uns manipuladores impiedosos. O pior é que se isto é assim com um ano - repito: ele ainda não sabe falar nem andar - como será quando ele tiver 16?
Nós pais vivemos enganados e somos diariamente enganados pelos nossos filhos. Aldrabados, mesmo. Vivemos enganados porque achamos que os conhecemos melhor que a palma da nossa mão e controlamos na perfeição as suas técnicas de manipulação. Achamos que somos os verdadeiros donos disto tudo e que não há ninguém que nos consiga passar a perna. Estamos convencidos que em nossa casa só nós é que passamos a perna aos nossos filhos, nunca o contrário. Acreditamos ingenuamente que o controlo emocional é nosso. Já a criançada, que desde tenra idade domina as técnicas mais desprezíveis de manipulação, vai-nos dando corda para nos enforcarmos ao mesmo tempo que vai conquistando a nossa cega e inabalável confiança. Eles tornam-se geniais na chantagem emocional, peritos em carregar-nos com o peso dos remorsos e exímios simuladores de personalidades diversas. Nós, pais, vamos facilmente nas cantigas. Até porque gostamos da melodia. E a cantiga dos nossos filhos é como os cigarros: começa por ser só um por semana mas quando damos por nós já estamos a comprar maços diariamente. A cantiga dos filhos também começa apenas com um beicinho mas acaba com a cantiga do bandido segundo a qual a professora é que é má e não sabe ensinar e os amigos é que são os irresponsáveis. E nós pais acreditamos em tudo. Queremos e gostamos de acreditar. Não vivemos sem o beicinho enganador e gostamos de ser convencidos pelos nossos filhos de que eles são bons rebeldes, gente de bem e palavra, valentes e virtuosos, crianças sensíveis e incapazes de matar uma mosca por mal. Gostamos que eles nos convençam que são aquilo que queremos que sejam. E eles sabem qual é o guião. Desde que nasceram que sabem qual é guião. E sabem perfeitamente que se o cumprirem à risca melhor para eles e para nós. Mas não há nada mais maravilhoso que este engano. A nossa ingenuidade, a nossa inabalável confiança, a nossa fé nos metralhas dos nossos filhos é aquilo que nos torna melhores pessoas e a eles melhores filhos. Para nós os defeitos dos nossos filhos são meros acidentes perfeitamente insignificantes e todos eles justificáveis. Aliás, nem são bem defeitos, são características. É por pensarem assim que os pais são as melhores pessoas do mundo: os pais acreditam sempre nos filhos. Sempre. Somos pessoas de uma fé inabalável nas crias. Mesmo que saibamos que estamos completamente enganados. É que estar enganado neste caso é um pormenor: o que verdadeiramente interessa é o beicinho. A maravilha do beicinho e do sorriso encantador. O resto são detalhes mesquinhos.
2014-08-21
Robin Williams, a noite e o riso
JOÃO MIGUEL TAVARES Público, 14/08/2014
Robin Williams era o tipo que se estava sempre a rir, e nós não podemos esperar do tipo que se está sempre a rir, do homem mais bem-disposto da sala, da máquina de produzir gargalhadas, do humorista destravado, excessivo e imparável, que pegue num cinto para se enforcar, aos 63 anos de idade. Ele não. Ele era o tipo divertido.
Infelizmente, a distracção é nossa: não há qualquer relação entre o riso e a felicidade. Ou se há, é uma relação contrária à que se poderia esperar. O humor é uma arma para enfrentar o absurdo da vida e uma das mais elevadas provas da nossa inteligência. O riso é a nossa defesa contra a consciência da finitude e o instrumento privilegiado para espantar a morte; é, digamos assim, o paliativo que Deus encontrou para que conseguíssemos enfrentar o mais abstruso dos dilemas da criação: "Terás em simultâneo a consciência da morte e o desejo de imortalidade. Vai ser terrível. Mas Eu vou deixar que te rias disso."
E nós rimos, claro. E o riso ajuda-nos a suportar dores, tristezas, melancolias. Mas o bom humorista não tem a mesma sorte - ele está demasiado perto da matéria que queima, vê com demasiada clareza o absurdo da vida. É por isso que nos faz rir: tem um acesso privilegiado ao código do mundo, aponta o dedo à mecânica silenciosa do quotidiano e desmonta as suas peças, a sua arte consiste em chamar a atenção para um certo tipo de óbvio (tiques, truques, hábitos, rituais) que nós não vislumbramos. Todo o grande humorista tem um acréscimo de lucidez. E esse excesso de lucidez empurra-o, com assustadora frequência, para os braços da tristeza e da depressão. Demasiado lúcido para ser feliz.
Repare-se na biografia habitual dos grandes humoristas: filhos únicos, caixas de óculos, miúdos privilegiados mas solitários, pouco sociáveis, gordos, onanistas, nerds, tipos que na adolescência só se conseguem integrar através do humor - o riso é o cavalo de Tróia que lhes permite entrar no mundo. Reparem também como praticamente não há homens (nem mulheres) bonitos no humor. Robin Williams não era bonito, tal como não o são Jim Carrey, Jerry Seinfeld, Louis CK, John Cleese, Bill Murray, Seth Rogen, Tina Fey, Sarah Silverman. A lista é infindável. Para se ser alguém na vida, pode ser de uma certa utilidade ficar fechado em casa na adolescência, sem acesso a festas, nem a miúdas. E essa solidão, esse rasto de clausura, muitas vezes fica lá, e nem Hollywood, nem uma família - ou três casamentos, no caso de Robin Williams - conseguem apagar.
Não há nada de relevante que possamos escrever sobre alguém que se mata - mas ficar em silêncio parece-me cumplicidade com a morte. Eu sou da geração Clube dos Poetas Mortos, filme que nunca me atrevi a rever, porque tenho a certeza de que é muito pior do que a memória que guardo dele. E é impossível ser dessa geração sem ficar profundamente tocado com o suicídio de Robin Williams. Ele foi um extraordinário actor sem nunca ter feito um extraordinário filme, mas para mim será sempre o professor que levou os alunos a subirem para as mesas, que me apresentou Leaves of Grass, e me ensinou o significado das palavras "carpe diem". O capitão, como no poema de Whitman, jaz agora morto, mas ao contrário do poema de Whitman, não houve gesta heróica, nem há razões para celebrar. Robin Williams mentiu: aproveitar apenas o dia não chega. Precisamos todos de alguma coisa que nos sustenha, quando o dia acaba e o riso não sai.
Robin Williams era o tipo que se estava sempre a rir, e nós não podemos esperar do tipo que se está sempre a rir, do homem mais bem-disposto da sala, da máquina de produzir gargalhadas, do humorista destravado, excessivo e imparável, que pegue num cinto para se enforcar, aos 63 anos de idade. Ele não. Ele era o tipo divertido.
Infelizmente, a distracção é nossa: não há qualquer relação entre o riso e a felicidade. Ou se há, é uma relação contrária à que se poderia esperar. O humor é uma arma para enfrentar o absurdo da vida e uma das mais elevadas provas da nossa inteligência. O riso é a nossa defesa contra a consciência da finitude e o instrumento privilegiado para espantar a morte; é, digamos assim, o paliativo que Deus encontrou para que conseguíssemos enfrentar o mais abstruso dos dilemas da criação: "Terás em simultâneo a consciência da morte e o desejo de imortalidade. Vai ser terrível. Mas Eu vou deixar que te rias disso."
E nós rimos, claro. E o riso ajuda-nos a suportar dores, tristezas, melancolias. Mas o bom humorista não tem a mesma sorte - ele está demasiado perto da matéria que queima, vê com demasiada clareza o absurdo da vida. É por isso que nos faz rir: tem um acesso privilegiado ao código do mundo, aponta o dedo à mecânica silenciosa do quotidiano e desmonta as suas peças, a sua arte consiste em chamar a atenção para um certo tipo de óbvio (tiques, truques, hábitos, rituais) que nós não vislumbramos. Todo o grande humorista tem um acréscimo de lucidez. E esse excesso de lucidez empurra-o, com assustadora frequência, para os braços da tristeza e da depressão. Demasiado lúcido para ser feliz.
Repare-se na biografia habitual dos grandes humoristas: filhos únicos, caixas de óculos, miúdos privilegiados mas solitários, pouco sociáveis, gordos, onanistas, nerds, tipos que na adolescência só se conseguem integrar através do humor - o riso é o cavalo de Tróia que lhes permite entrar no mundo. Reparem também como praticamente não há homens (nem mulheres) bonitos no humor. Robin Williams não era bonito, tal como não o são Jim Carrey, Jerry Seinfeld, Louis CK, John Cleese, Bill Murray, Seth Rogen, Tina Fey, Sarah Silverman. A lista é infindável. Para se ser alguém na vida, pode ser de uma certa utilidade ficar fechado em casa na adolescência, sem acesso a festas, nem a miúdas. E essa solidão, esse rasto de clausura, muitas vezes fica lá, e nem Hollywood, nem uma família - ou três casamentos, no caso de Robin Williams - conseguem apagar.
Não há nada de relevante que possamos escrever sobre alguém que se mata - mas ficar em silêncio parece-me cumplicidade com a morte. Eu sou da geração Clube dos Poetas Mortos, filme que nunca me atrevi a rever, porque tenho a certeza de que é muito pior do que a memória que guardo dele. E é impossível ser dessa geração sem ficar profundamente tocado com o suicídio de Robin Williams. Ele foi um extraordinário actor sem nunca ter feito um extraordinário filme, mas para mim será sempre o professor que levou os alunos a subirem para as mesas, que me apresentou Leaves of Grass, e me ensinou o significado das palavras "carpe diem". O capitão, como no poema de Whitman, jaz agora morto, mas ao contrário do poema de Whitman, não houve gesta heróica, nem há razões para celebrar. Robin Williams mentiu: aproveitar apenas o dia não chega. Precisamos todos de alguma coisa que nos sustenha, quando o dia acaba e o riso não sai.
2014-08-19
Minorias Menores: os cristãos do Médio Oriente
PAULO RANGEL, Público, 12/08/2014
Por vezes, algum prurido ou "pseudo-prurido" ocidental faz com que se faça uma grande apologia da liberdade religiosa e da defesa das minorias, mas se enfileire por uma atitude passiva quando está em causa a religião dominante no Ocidente.
1. As operações militares que os Estados Unidos iniciaram no Iraque, com cooperação francesa e britânica, e a acção de ajuda humanitária a centenas de milhares de refugiados mostram bem a instabilidade e a gravidade do momento internacional que vivemos.
Especialmente se pensarmos que este desenvolvimento decorre a par da terrível situação em Gaza, da persistência do impasse na Síria, do adensar das interrogações na Ucrânia, da emissão do alerta de saúde global a propósito do vírus Ébola. A actual situação no Iraque e a necessidade de intervenção externa merece uma análise cuidada e uma reflexão profunda, que hoje não vou nem quero fazer aqui.
2. Hoje quero pôr em destaque, chamemos-lhe assim por ironia, um "dano colateral" das mudanças que estão a ocorrer no Médio Oriente e, em especial, no Iraque. Esse "dano colateral" vem a ser a sistemática perseguição aos cristãos iraquianos, que começou imediatamente após a queda de Saddam Hussein. E faço-o, não apenas por aparecerem agora em parangonas, as atrocidades do chamado Exército islâmico do Iraque e do Levante. Mas muito por causa do vibrante apelo do Papa Francisco a este respeito, apelo que ouvi na semana passada transmitido por um sacerdote guineense na Igreja da Trindade no Porto e que acabo de ouvir a um padre de origem mediterrânica na discreta catedral de S.Pedro e S.Paulo em Tallin.
3. É bem sabido que o regime de Saddam Hussein, apesar de ditatorial, senguinário e delirante, mercê da sua filiação numa tradição político-militar laica e ideológica, revelou sempre uma tolerância razoável para com as minorias religiosas. No que, de resto, não se distinguiu da linha prosseguida pela terrível famíla Assad na Síria ou da orientação própria da ditadura militar que regia o Egipto.
A queda de Saddam Hussein e a situação de instabilidade permanente que se lhe seguiu, fosse com a autoridade norte-americana fosse com a instalação da nova governação autóctone, levaram ao início de uma perseguição sistemática à minoria cristã. Estamos a falar de comunidades cristãs numerosas, em alguns casos com uma implantação contínua e ininterrupta que remonta ao nascimento do cristianismo (é o caso das comunidades da Caldeia e de algumas do Egipto). Trata-se de matéria que tenho seguido com interesse, embora intermitentemente, no Parlamento Europeu e, em particular, no âmbito das plataformas de diálogo inter-religioso de há muito estabelecidas no PPE e em que as igrejas cristãs do Médio Oriente e a Igreja Copta do Egipto têm um grande protagonismo.
4. Pois bem, assim que a mudança de poder se iniciou, a situação das famílias cristãs de Bagdade e também de outras regiões passou a ser de risco. Recordo-me de, há cerca de quatro anos, o Patriarca de Bagdade, ao lado de outros bispos iraquianos, ter relatado em Bruxelas que os grupos fundamentalistas muçulmanos tinham inaugurado uma carnificina baseada na prática do terror. Em cada semana, à força da espada e do sabre, matavam uma família de religião cristã na comunidade de Bagdade. Faziam-no com uma regularidade e com uma implacabilidade tais que o pânico se disseminou e um número relevantíssimo de cristãos resolveu abandonar a cidade e o país. Esta prática terrorista, apesar de regular e de altamente eficaz nos seus objectivos perversos, não teve nunca visibilidade na comunidade internacional. Por mais denúncias que os bispos fizessem, poucos queriam ouvir falar de perseguições aos cristãos, por mais que tivessem como bandeira a defesa dos direitos humanos e da tolerância. É certo que, em alguns casos contados, houve alguma repercussão na opinião pública e publicada. Por exemplo, no caso do ataque às igrejas coptas e aos seus membros no Egipto, aquando da turbulência causada pela primavera árabe. Ou, muito recentemente, no impressionante caso do rapto de centenas de raparigas nigerianas. Mas a verdade é que continua a haver um largo silenciamento dos ataques às minorias cristãs
5. É absolutamente fundamental não apagar nem silenciar esta terrível perseguição. Só agora com a denúncia da actuação mais recente do Exército Islâmico do Iraque e do Levante, em que extremistas muçulmanos decretaram a obrigatoriedade da conversão dos cristãos, emitiram um fatwa que confisca todos os seus bens e pertences e lhes assinalaram as casas, para que se saiba que são infiéis, é que começa a haver um movimento consistente de defesa dos direitos desta minoria. Estas práticas, como ainda ontem se viu relativamente a outra minoria religiosa, não andam longe das grandes atrocidades do regime nazi. Ora, por vezes, algum prurido ou "pseudo-prurido" ocidental faz com que se faça uma grande apologia da liberdade religiosa e da defesa das minorias, mas se enfileire por uma atitude passiva quando está em causa a religião dominante no Ocidente.
6. Que fique claro de uma vez por todas: as minorias cristãs também merecem protecção e também precisam de uma voz activa na comunidade internacional. Claro que o pior que poderia acontecer é que essa defesa activa fosse feita por um qualquer sentimento de "cumplicidade religiosa", pois isso, para além de injusto e moralmente inaceitável, conduziria a uma escalada e a uma espiral de vingança e de vinganças. O direito a professar a religião, em liberdade e em tolerância, é independente da concreta fé que cada um professa. Eis um princípio que deve valer para todas as minorias religiosas. Também as cristãs. Também as cristãs, mas não por serem cristãs.
Por vezes, algum prurido ou "pseudo-prurido" ocidental faz com que se faça uma grande apologia da liberdade religiosa e da defesa das minorias, mas se enfileire por uma atitude passiva quando está em causa a religião dominante no Ocidente.
1. As operações militares que os Estados Unidos iniciaram no Iraque, com cooperação francesa e britânica, e a acção de ajuda humanitária a centenas de milhares de refugiados mostram bem a instabilidade e a gravidade do momento internacional que vivemos.
Especialmente se pensarmos que este desenvolvimento decorre a par da terrível situação em Gaza, da persistência do impasse na Síria, do adensar das interrogações na Ucrânia, da emissão do alerta de saúde global a propósito do vírus Ébola. A actual situação no Iraque e a necessidade de intervenção externa merece uma análise cuidada e uma reflexão profunda, que hoje não vou nem quero fazer aqui.
2. Hoje quero pôr em destaque, chamemos-lhe assim por ironia, um "dano colateral" das mudanças que estão a ocorrer no Médio Oriente e, em especial, no Iraque. Esse "dano colateral" vem a ser a sistemática perseguição aos cristãos iraquianos, que começou imediatamente após a queda de Saddam Hussein. E faço-o, não apenas por aparecerem agora em parangonas, as atrocidades do chamado Exército islâmico do Iraque e do Levante. Mas muito por causa do vibrante apelo do Papa Francisco a este respeito, apelo que ouvi na semana passada transmitido por um sacerdote guineense na Igreja da Trindade no Porto e que acabo de ouvir a um padre de origem mediterrânica na discreta catedral de S.Pedro e S.Paulo em Tallin.
3. É bem sabido que o regime de Saddam Hussein, apesar de ditatorial, senguinário e delirante, mercê da sua filiação numa tradição político-militar laica e ideológica, revelou sempre uma tolerância razoável para com as minorias religiosas. No que, de resto, não se distinguiu da linha prosseguida pela terrível famíla Assad na Síria ou da orientação própria da ditadura militar que regia o Egipto.
A queda de Saddam Hussein e a situação de instabilidade permanente que se lhe seguiu, fosse com a autoridade norte-americana fosse com a instalação da nova governação autóctone, levaram ao início de uma perseguição sistemática à minoria cristã. Estamos a falar de comunidades cristãs numerosas, em alguns casos com uma implantação contínua e ininterrupta que remonta ao nascimento do cristianismo (é o caso das comunidades da Caldeia e de algumas do Egipto). Trata-se de matéria que tenho seguido com interesse, embora intermitentemente, no Parlamento Europeu e, em particular, no âmbito das plataformas de diálogo inter-religioso de há muito estabelecidas no PPE e em que as igrejas cristãs do Médio Oriente e a Igreja Copta do Egipto têm um grande protagonismo.
4. Pois bem, assim que a mudança de poder se iniciou, a situação das famílias cristãs de Bagdade e também de outras regiões passou a ser de risco. Recordo-me de, há cerca de quatro anos, o Patriarca de Bagdade, ao lado de outros bispos iraquianos, ter relatado em Bruxelas que os grupos fundamentalistas muçulmanos tinham inaugurado uma carnificina baseada na prática do terror. Em cada semana, à força da espada e do sabre, matavam uma família de religião cristã na comunidade de Bagdade. Faziam-no com uma regularidade e com uma implacabilidade tais que o pânico se disseminou e um número relevantíssimo de cristãos resolveu abandonar a cidade e o país. Esta prática terrorista, apesar de regular e de altamente eficaz nos seus objectivos perversos, não teve nunca visibilidade na comunidade internacional. Por mais denúncias que os bispos fizessem, poucos queriam ouvir falar de perseguições aos cristãos, por mais que tivessem como bandeira a defesa dos direitos humanos e da tolerância. É certo que, em alguns casos contados, houve alguma repercussão na opinião pública e publicada. Por exemplo, no caso do ataque às igrejas coptas e aos seus membros no Egipto, aquando da turbulência causada pela primavera árabe. Ou, muito recentemente, no impressionante caso do rapto de centenas de raparigas nigerianas. Mas a verdade é que continua a haver um largo silenciamento dos ataques às minorias cristãs
5. É absolutamente fundamental não apagar nem silenciar esta terrível perseguição. Só agora com a denúncia da actuação mais recente do Exército Islâmico do Iraque e do Levante, em que extremistas muçulmanos decretaram a obrigatoriedade da conversão dos cristãos, emitiram um fatwa que confisca todos os seus bens e pertences e lhes assinalaram as casas, para que se saiba que são infiéis, é que começa a haver um movimento consistente de defesa dos direitos desta minoria. Estas práticas, como ainda ontem se viu relativamente a outra minoria religiosa, não andam longe das grandes atrocidades do regime nazi. Ora, por vezes, algum prurido ou "pseudo-prurido" ocidental faz com que se faça uma grande apologia da liberdade religiosa e da defesa das minorias, mas se enfileire por uma atitude passiva quando está em causa a religião dominante no Ocidente.
6. Que fique claro de uma vez por todas: as minorias cristãs também merecem protecção e também precisam de uma voz activa na comunidade internacional. Claro que o pior que poderia acontecer é que essa defesa activa fosse feita por um qualquer sentimento de "cumplicidade religiosa", pois isso, para além de injusto e moralmente inaceitável, conduziria a uma escalada e a uma espiral de vingança e de vinganças. O direito a professar a religião, em liberdade e em tolerância, é independente da concreta fé que cada um professa. Eis um princípio que deve valer para todas as minorias religiosas. Também as cristãs. Também as cristãs, mas não por serem cristãs.
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