JOÃO CÉSAR DAS NEVES, DN, 2014.06.24
Antigamente as cirurgias eram feitas a frio, sem adormecer o paciente. Nos estretores da dor muitos morriam da cura. As modernas anestesias tornaram tudo mais sereno e eficaz, mas trouxeram novos problemas. Confundindo alívio com saúde, alguns evitam o tratamento incómodo, morrendo por descuido terapêutico. É isso que se passa na economia internacional.
Quando há 85 anos rebentou a bolha bolsista de 1929, as autoridades deixaram os bancos cair, para os punir das evidentes loucuras de especulação. O resultado foi o colapso da circulação monetária. Falindo os bancos, os depósitos desapareceram; as pessoas sem dinheiro não gastavam, o que arruinou as empresas, deixando muita gente sem emprego e sem dinheiro; isso falia novas empresas, recomeçando a espiral arrasadora. Foi a "grande depressão", maior catástrofe económica da História.
Um impacto tão evidente ensinou a lição. O mundo não só exigiu mais dos bancos centrais, mas criou fundos internacionais para amortecer as dores. Quando em 2008 rebentou nova bolha, as autoridades fizeram com rapidez aquilo que deviam ter feito em 1929. A súbita e vasta injecção de moeda pelos bancos centrais segurou a generalidade do crédito, enquanto programas de ajustamento do FMI e UE apoiavam as economias frágeis. Até em Portugal os custos foram muito inferiores à depressão. Sabemos já a amortecer os terríveis efeitos da explosão de bolhas.
Aí surgiu novo perigo. Desequilíbrios de pagamentos e orçamentos são mero sintoma de dramas mais profundos, pois o problema do mundo não é financeiro mas económico. A anestesia apenas cria uma janela de conforto para realizar a cirurgia drástica que, essa sim, elimina o mal. Quando bancos centrais e autoridades europeias adormecem as dores, fazem o seu dever. Quando os responsáveis nacionais e empresariais usam esse alívio para esquivar medidas duras, matam o doente.
Os exemplos são evidentes. Em Portugal a ajuda da troika evitou o colapso de um défice orçamental de 11,5% do PIB em 2010, após décadas a fingir normalidade. O alívio de três anos permitia medidas indispensáveis, mas o tempo foi passando sem verdadeiras reformas. Apesar da suposta austeridade, esta oportunidade de cura foi realmente desperdiçada. Portugal discutiu, barafustou, inventou desculpas e bloqueu cortes, medidas e programas fazendo muito pouco. O défice de 5,8% em 2013 mostra que ainda não sustentamos o Estado que temos. As taxas de juro da dívida pública estão baixas, mas isso deve--se à anestesia da liquidez mundial, sem revelar verdadeira confiança dos mercados. Assim se caminha alegremente para uma catástrofe muito maior do que a evitada há três anos.
O que se diz do Estado pode afirmar-se da banca. Repletas de dinheiro barato emitido pelos bancos centrais, as instituições de crédito europeias sobrevivem sem dificuldades, apesar dos erros que acumularam nos anos de facilidade. Mas poucas aproveitam a folga para colmatar os buracos e limpar o lixo do balanço. Limitam--se a rodar créditos incobráveis, alimentando empresas fantasmas que fingem sobreviver. O doente está ligado à máquina mas sem tratamento e sem realmente recuperar.
Quando no fim de 2008 os bancos centrais encharcaram as economias com liquidez, pensavam tratar-se de um expediente de alguns meses, simples ajuda para permitir o ajuste das economias sem cair em ruínas. Passados quase seis anos, o dinheiro não só não saiu mas continua a jorrar a taxas alucinantes. A terrível doença, a desconfiança, permanece e até se agravou. A ajuda temporária perpetua-se e pode transformar-se na pior das armadilhas. A culpa não é das autoridades monetárias, meros anestesistas, mas nas reformas evitadas, ilusões cómodas, sobretudo na suspeita geral que todos alimentam, sem perceber que serram o tronco onde se sentam.
Nunca a economia viveu tanto tempo alagada em tanta liquidez. Sob a inundação endémica surgem novos sintomas, deformidades e maleitas que ninguém conhece. Assim se vai comodamente preparando a desgraça que enfrentaremos daqui a uns tempos.
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2014-06-30
2012-10-19
Agressão sem pacto
João César das Neves, DN, 2012-10-15
Não é agradável, mas é preciso dizer que as propostas da extrema-esquerda, PCP, BE e CGTP, são um disparate. Rejeitar o "pacto de agressão", como lhe chamam, e renegociar a dívida iria não reduzir a austeridade, mas aumentá-la imenso.
Isto não significa impedir essas forças de afirmarem o que quiserem e, muito menos, sugerir punição por fazê-lo. É preciso cautela, porque elas estão sempre prontas a fazer-se de mártires, acusando de antidemocrático quem se atreva a criticá-las. Ninguém as quer perseguir. São movimentos legítimos, que devem ser levados a sério e avaliados pela seriedade do que defendem. Têm todo o direito de dizer o que quiserem, tal como existe o direito de livremente as comentar.
É evidente que têm toda a razão em repudiar a austeridade. Aliás nisso estão como todos os partidos e orientações. Ninguém em Portugal gosta ou deseja sacrifícios. O facto de a sua rejeição ser mais sonora e violenta não significa maior desaprovação, só menos cortesia.
O que os distingue é a forma como reagem aos sofrimentos que afectam todos. Se rejeitássemos a dívida externa e abandonássemos os credores teríamos, é claro, um benefício imediato, eliminando os juros e ónus dessa dívida. Mas o que nos levou a pedir ajuda externa pouco teve a ver com isso. A causa aflitiva vinha de os mercados se terem fechado a novos empréstimos, impedindo os financiamentos que o Estado precisa para sobreviver. O problema dos países em dificuldades financeiras, como das pessoas, é menos o que já devem do que aquilo que precisam de continuar a pedir emprestado.
O pacote de ajuda aprovado a 17 (Econfin) e 20 (FMI) de Maio de 2011 trazia consigo 78 mil milhões de euros até fins de 2013, quase metade da nossa dívida pública directa à data do acordo. Esse enorme empréstimo de último recurso foi feito com condições, a famigerada austeridade, porque é preciso resolver o desequilíbrio que gerou a situação.
Aliás, o mais irónico é que a austeridade pouco tem a ver com a dívida. Ela serve para curar o défice, uma sangria que teremos de resolver, haja ou não dívida. Rejeitar juros e reembolsos não curaria a doença, só adiaria os sintomas.
Se Portugal, como querem essas forças, tivesse rejeitado as condições, o efeito seria uma travagem brusca do financiamento externo, ficando o País entregue à sua sorte. Isso daria uma austeridade maior e imediata. O que a troika quer que façamos em três anos teríamos de o fazer de um dia para o outro, por absoluta falta de fundos. Nesse caso, as pensões e salários públicos entrariam em ruptura, perdendo não dois, mas muitos meses. Os impostos seriam elevados muito acima do que se prevê que venham a subir. Haveria cortes brutais em todos os serviços e sistemas públicos.
Isto não é o pior. Enveredando por um caminho de rejeição das suas responsabilidades internacionais, o nosso país tornar-se-ia então um pária mundial, junto com Irão ou Coreia do Norte, pior do que a Grécia. Ganharíamos amigos em certos cantos do mundo, mas à custa do corte com os nossos parceiros e aliados, queda dramática das exportações, investimentos e outros fluxos. Era o colapso.
Assim, as propostas que esses movimentos apregoam com tanto afinco constituem, em poucas palavras, um disparate monstruoso, que qualquer pessoa sensata coraria de sugerir. Não estão em causa opções ideológicas, que raramente têm efeito na contabilidade e nas finanças, mas simples bom senso. Isto são coisas evidentes, que todos entendem.
Sendo assim, por que razão pessoas inteligentes propõem tais ideias de cabeça erguida? Precisamente porque sabem que ninguém as seguirá. Fingindo ter alternativa, que realmente não existe, capitalizam todo o descontentamento a seu favor, enquanto a "troika de direita (PS/PSD/CDS)" paga a despesa política de salvar o País. Por detrás de uma máscara de linha doutrinal está, realmente, um descarado oportunismo. Os outros que façam o que é preciso, debaixo de uma impiedosa chuva de insultos, enquanto eles aproveitam para subir nas sondagens à custa da desgraça nacional.
Não é agradável, mas é preciso dizer que as propostas da extrema-esquerda, PCP, BE e CGTP, são um disparate. Rejeitar o "pacto de agressão", como lhe chamam, e renegociar a dívida iria não reduzir a austeridade, mas aumentá-la imenso.
Isto não significa impedir essas forças de afirmarem o que quiserem e, muito menos, sugerir punição por fazê-lo. É preciso cautela, porque elas estão sempre prontas a fazer-se de mártires, acusando de antidemocrático quem se atreva a criticá-las. Ninguém as quer perseguir. São movimentos legítimos, que devem ser levados a sério e avaliados pela seriedade do que defendem. Têm todo o direito de dizer o que quiserem, tal como existe o direito de livremente as comentar.
É evidente que têm toda a razão em repudiar a austeridade. Aliás nisso estão como todos os partidos e orientações. Ninguém em Portugal gosta ou deseja sacrifícios. O facto de a sua rejeição ser mais sonora e violenta não significa maior desaprovação, só menos cortesia.
O que os distingue é a forma como reagem aos sofrimentos que afectam todos. Se rejeitássemos a dívida externa e abandonássemos os credores teríamos, é claro, um benefício imediato, eliminando os juros e ónus dessa dívida. Mas o que nos levou a pedir ajuda externa pouco teve a ver com isso. A causa aflitiva vinha de os mercados se terem fechado a novos empréstimos, impedindo os financiamentos que o Estado precisa para sobreviver. O problema dos países em dificuldades financeiras, como das pessoas, é menos o que já devem do que aquilo que precisam de continuar a pedir emprestado.
O pacote de ajuda aprovado a 17 (Econfin) e 20 (FMI) de Maio de 2011 trazia consigo 78 mil milhões de euros até fins de 2013, quase metade da nossa dívida pública directa à data do acordo. Esse enorme empréstimo de último recurso foi feito com condições, a famigerada austeridade, porque é preciso resolver o desequilíbrio que gerou a situação.
Aliás, o mais irónico é que a austeridade pouco tem a ver com a dívida. Ela serve para curar o défice, uma sangria que teremos de resolver, haja ou não dívida. Rejeitar juros e reembolsos não curaria a doença, só adiaria os sintomas.
Se Portugal, como querem essas forças, tivesse rejeitado as condições, o efeito seria uma travagem brusca do financiamento externo, ficando o País entregue à sua sorte. Isso daria uma austeridade maior e imediata. O que a troika quer que façamos em três anos teríamos de o fazer de um dia para o outro, por absoluta falta de fundos. Nesse caso, as pensões e salários públicos entrariam em ruptura, perdendo não dois, mas muitos meses. Os impostos seriam elevados muito acima do que se prevê que venham a subir. Haveria cortes brutais em todos os serviços e sistemas públicos.
Isto não é o pior. Enveredando por um caminho de rejeição das suas responsabilidades internacionais, o nosso país tornar-se-ia então um pária mundial, junto com Irão ou Coreia do Norte, pior do que a Grécia. Ganharíamos amigos em certos cantos do mundo, mas à custa do corte com os nossos parceiros e aliados, queda dramática das exportações, investimentos e outros fluxos. Era o colapso.
Assim, as propostas que esses movimentos apregoam com tanto afinco constituem, em poucas palavras, um disparate monstruoso, que qualquer pessoa sensata coraria de sugerir. Não estão em causa opções ideológicas, que raramente têm efeito na contabilidade e nas finanças, mas simples bom senso. Isto são coisas evidentes, que todos entendem.
Sendo assim, por que razão pessoas inteligentes propõem tais ideias de cabeça erguida? Precisamente porque sabem que ninguém as seguirá. Fingindo ter alternativa, que realmente não existe, capitalizam todo o descontentamento a seu favor, enquanto a "troika de direita (PS/PSD/CDS)" paga a despesa política de salvar o País. Por detrás de uma máscara de linha doutrinal está, realmente, um descarado oportunismo. Os outros que façam o que é preciso, debaixo de uma impiedosa chuva de insultos, enquanto eles aproveitam para subir nas sondagens à custa da desgraça nacional.
2012-09-10
Actualidade económica
A opinião de João César das Neves, em entrevista e em artigo.
Vale a pena ler para perceber melhor a situação actual.
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