A opinião de João César das Neves, em entrevista e em artigo.
Vale a pena ler para perceber melhor a situação actual.
2012-09-10
2012-08-16
Desporto por desporto
JOÃO CÉSAR DAS NEVES, DN 2012-08-06
A sociedade moderna, cortando as relações com o transcendente, teve de arranjar mitologias, cultos, teologias para se inspirar. O desporto, como a ciência, música e heroísmo, é um elemento central dessa espiritualidade. Os atletas alegadamente mostram o melhor do ser humano, esquecendo misérias, desgraças e maldades, promovendo a auto-superação, camaradagem, colaboração e paz. Os Jogos Olímpicos são a grande celebração mundial da mística, proclamando bem alto este evangelho.
Mas existe um abismo entre desporto e a alta competição dos certames mundiais que bate recordes. Aí a situação aproxima-se do que a sociedade moderna mais se orgulha de erradicar: a escravatura. O facto de ser voluntária e rodeada de fama não a redime. Torna-a paradoxal.
A vida dos atletas manifesta bem este paralelo. Treinos, dietas, disciplina, lesões, exaustão e sofrimento são coisas que, se fossem impostos a alguém, seriam consideradas campo de concentração. Além disso, há a rivalidade, obsessão pelas marcas, pressão psicológica, humilhações, violência moral, isolamento, exclusividade que são brutais. Até o mandamento central desta fé, levar-se a si próprio ao extremo, é vicioso, pois a virtude está no equilíbrio e moderação. A vida de atleta é, realmente, bastante miserável, destruindo a humanidade, em vez de a ampliar, como garante a mística.
O dogma oculta a verdade com um truque. Não nega a violência e angústia, mas, centrando a atenção nos vencedores, garante que tudo vale a pena perante a alegria do sucesso e a glória da vitória. Mas, ao contrário dos filmes de aventuras, os adversários vencidos não são vilões malvados. São outros atletas, que também pagaram os custos altíssimos, também forçaram e esfrangalharam a sua humanidade, tendo como única recompensa vergonha e fiasco.
A isto junta-se extrema injustiça e impiedade, oculta debaixo do rigor dos resultados. Com os níveis a que chegaram os recordes, o fracasso acontece por milésimos de segundo, centímetros, queda na pirueta, pequeno deslize, ligeira indisposição. Esse nada deita a perder anos de trabalho brutal, que valem zero. E o injustiçado, que se escravizou voluntariamente, nem sequer pode protestar contra o cronómetro, a fita métrica e evidência dos árbitros. Só tem de desaparecer e tentar outra vez, se ainda tiver idade.
Isto aponta outra evidente falha da mística: desporto é para jovens saudáveis. Uma fé que apenas dá sentido à vida a alguns durante uns anos, não presta. Os apóstolos defendem-se dizendo que desporto é para toda a vida, sendo a alta competição apenas dos mestres, como os mosteiros e eremitérios na religião. Mas no desporto, ao contrário da religião, vitória e fama fazem parte da mística. A falsidade da tese vê-se na vida posterior dos grandes atletas.
Tirando o pequeno punhado de superestrelas que vive da celebridade, à esmagadora maioria dos desportistas, mesmo grandes campeões, espera-os anos de nostalgia, anonimato, até miséria, pois muitos desperdiçaram a juventude sem aprender uma profissão útil. A mística tenta esconder a verdade, celebrando glórias passadas, mas ela por vezes emerge, como no filme Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou nas notícias recorrentes de ex-campeões que vendem as medalhas para comer.
É verdade que estes são precisamente os pontos em que toca o espírito olímpico. Ao contrário dos campeonatos, os Jogos dirigem-se a amadores, pessoas que praticam desporto por desporto, não por obrigação. Participar é mais importante do que vencer ou bater recordes. Esta é a teoria, muito longe da realidade. Repetidamente se ouvem os sumo sacerdotes lamentar a perda do espírito olímpico. Em grande medida, os Jogos são apenas mais um campeonato, para os mesmos profissionais que batem o circuito. Mas o mal estava na origem: se apenas interessa a prática, porquê criar medalhas e podium?
O desporto é uma excelente actividade humana, como a arte ou ciência, mas, como elas, não suporta ser erigida em finalidade de vida. O desporto só é desporto se for praticado por desporto.
A sociedade moderna, cortando as relações com o transcendente, teve de arranjar mitologias, cultos, teologias para se inspirar. O desporto, como a ciência, música e heroísmo, é um elemento central dessa espiritualidade. Os atletas alegadamente mostram o melhor do ser humano, esquecendo misérias, desgraças e maldades, promovendo a auto-superação, camaradagem, colaboração e paz. Os Jogos Olímpicos são a grande celebração mundial da mística, proclamando bem alto este evangelho.
Mas existe um abismo entre desporto e a alta competição dos certames mundiais que bate recordes. Aí a situação aproxima-se do que a sociedade moderna mais se orgulha de erradicar: a escravatura. O facto de ser voluntária e rodeada de fama não a redime. Torna-a paradoxal.
A vida dos atletas manifesta bem este paralelo. Treinos, dietas, disciplina, lesões, exaustão e sofrimento são coisas que, se fossem impostos a alguém, seriam consideradas campo de concentração. Além disso, há a rivalidade, obsessão pelas marcas, pressão psicológica, humilhações, violência moral, isolamento, exclusividade que são brutais. Até o mandamento central desta fé, levar-se a si próprio ao extremo, é vicioso, pois a virtude está no equilíbrio e moderação. A vida de atleta é, realmente, bastante miserável, destruindo a humanidade, em vez de a ampliar, como garante a mística.
O dogma oculta a verdade com um truque. Não nega a violência e angústia, mas, centrando a atenção nos vencedores, garante que tudo vale a pena perante a alegria do sucesso e a glória da vitória. Mas, ao contrário dos filmes de aventuras, os adversários vencidos não são vilões malvados. São outros atletas, que também pagaram os custos altíssimos, também forçaram e esfrangalharam a sua humanidade, tendo como única recompensa vergonha e fiasco.
A isto junta-se extrema injustiça e impiedade, oculta debaixo do rigor dos resultados. Com os níveis a que chegaram os recordes, o fracasso acontece por milésimos de segundo, centímetros, queda na pirueta, pequeno deslize, ligeira indisposição. Esse nada deita a perder anos de trabalho brutal, que valem zero. E o injustiçado, que se escravizou voluntariamente, nem sequer pode protestar contra o cronómetro, a fita métrica e evidência dos árbitros. Só tem de desaparecer e tentar outra vez, se ainda tiver idade.
Isto aponta outra evidente falha da mística: desporto é para jovens saudáveis. Uma fé que apenas dá sentido à vida a alguns durante uns anos, não presta. Os apóstolos defendem-se dizendo que desporto é para toda a vida, sendo a alta competição apenas dos mestres, como os mosteiros e eremitérios na religião. Mas no desporto, ao contrário da religião, vitória e fama fazem parte da mística. A falsidade da tese vê-se na vida posterior dos grandes atletas.
Tirando o pequeno punhado de superestrelas que vive da celebridade, à esmagadora maioria dos desportistas, mesmo grandes campeões, espera-os anos de nostalgia, anonimato, até miséria, pois muitos desperdiçaram a juventude sem aprender uma profissão útil. A mística tenta esconder a verdade, celebrando glórias passadas, mas ela por vezes emerge, como no filme Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou nas notícias recorrentes de ex-campeões que vendem as medalhas para comer.
É verdade que estes são precisamente os pontos em que toca o espírito olímpico. Ao contrário dos campeonatos, os Jogos dirigem-se a amadores, pessoas que praticam desporto por desporto, não por obrigação. Participar é mais importante do que vencer ou bater recordes. Esta é a teoria, muito longe da realidade. Repetidamente se ouvem os sumo sacerdotes lamentar a perda do espírito olímpico. Em grande medida, os Jogos são apenas mais um campeonato, para os mesmos profissionais que batem o circuito. Mas o mal estava na origem: se apenas interessa a prática, porquê criar medalhas e podium?
O desporto é uma excelente actividade humana, como a arte ou ciência, mas, como elas, não suporta ser erigida em finalidade de vida. O desporto só é desporto se for praticado por desporto.
2012-08-06
E que tal voltar ao Técnico?
O Técnico enviou a seguinte mensagem aos antigos alunos:
"
Caros Antigos Alunos,
Reforçando a importância da aprendizagem e formação ao longo da vida, informa-se que estão abertas candidaturas para pós-graduações, mestrados e doutoramentos no IST. A informação sobre os cursos e procedimentos de candidatura pode ser consultada em: http://www.ist.utl.pt/pt/candidatos/candidaturas/
É também possível a realização de cadeiras semestrais, para aprofundamento de conhecimentos, através da inscrição em unidades curriculares isoladas. Mais informação disponível no Guia Académico do IST 12?13 (1ª parte, pág.29), disponível para consulta em: http://www.ist.utl.pt/pt/alunos/
"
E que tal voltar ao Técnico? Nem que seja para fazer uma "cadeirinha" para matar saudades :)
Recomendo, em particular, Sistemas Empresariais Integrados ;)
Talvez me encontrem por lá, em Fevereiro.
"
Caros Antigos Alunos,
Reforçando a importância da aprendizagem e formação ao longo da vida, informa-se que estão abertas candidaturas para pós-graduações, mestrados e doutoramentos no IST. A informação sobre os cursos e procedimentos de candidatura pode ser consultada em: http://www.ist.utl.pt/pt/candidatos/candidaturas/
É também possível a realização de cadeiras semestrais, para aprofundamento de conhecimentos, através da inscrição em unidades curriculares isoladas. Mais informação disponível no Guia Académico do IST 12?13 (1ª parte, pág.29), disponível para consulta em: http://www.ist.utl.pt/pt/alunos/
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E que tal voltar ao Técnico? Nem que seja para fazer uma "cadeirinha" para matar saudades :)
Recomendo, em particular, Sistemas Empresariais Integrados ;)
Talvez me encontrem por lá, em Fevereiro.
2012-08-04
Todos olham para os Padres
"
Todos olham para os Padres. O QUE DIZEM DELES?
O PADRE ESTÁ CERTO OU ERRADO?
Há paróquias que têm dez mil ou mais fiéis….e um PADRE.
É curioso, todos falam sobre o Padre, que é mais discutido que um réu…
É o alvo de todos os olhares.
É o alvo de todas as opiniões e juízos.
É o alvo de todos os caprichos e imaginações.
É hábito dizer-se “gostos não se discutem”...
porém ele é o alvo de todos os gostos.
Senão vejamos:
Se reza muito – Não tem nada que fazer.
Se reza pouco – Nem fé tem.
Se é gordo – É um comilão
Se é magro – Nem para comer serve
Se é velho – Está ultrapassado
Se é Jovem – Ainda tem muito que aprender
Se é “bom rapaz” – Onde é que isto vai dar...
Se é muito simpático – Não irá muito longe
Se é antipático – É insuportável
Se fuma – É um viciado
Se não fuma – Não é homem…
Se canta mal – É tema para piadas
Se canta bem – É um vaidoso; quer chamar a atenção
Se demora na homilia – É um chato, nunca mais acaba
Se fala pouco – não se preparou como deve ser
Se é amável – Não tem carácter
Se é tranquilo – Querem-no com mais nervo, com mais vida
Se é generoso – É um esbanjador
Se é muito activo – É precipitado, falta-lhe experiência
Se é poupado – É avarento, agarrado.
Se sai à rua – Nunca está na Igreja
Se não sai – Não convive com ninguém
Se está com os pobres – Queixam-se e desprezam-no os ricos
Se está com os ricos – Queixam-se os pobres, que se sentem à margem.
Se trata mais com os homens – Queixam-se as mulheres e é...
Se trata mais com as mulheres – É objecto de maledicência e...
Se dá preferência às crianças – Os mais velhos interrogam-se…
Se toca algum instrumento musical – É dissipado e liberal
Se vai assistir a um jogo de futebol – É um escândalo. Deveria estar na Igreja!
Se nunca participa de um desporto – É um antiquado e anti-desportivo.
Se ...
E nós... como o queremos?
"
Afixado pelo Pe. Nuno Westwood no Facebook
Todos olham para os Padres. O QUE DIZEM DELES?
O PADRE ESTÁ CERTO OU ERRADO?
Há paróquias que têm dez mil ou mais fiéis….e um PADRE.
É curioso, todos falam sobre o Padre, que é mais discutido que um réu…
É o alvo de todos os olhares.
É o alvo de todas as opiniões e juízos.
É o alvo de todos os caprichos e imaginações.
É hábito dizer-se “gostos não se discutem”...
porém ele é o alvo de todos os gostos.
Senão vejamos:
Se reza muito – Não tem nada que fazer.
Se reza pouco – Nem fé tem.
Se é gordo – É um comilão
Se é magro – Nem para comer serve
Se é velho – Está ultrapassado
Se é Jovem – Ainda tem muito que aprender
Se é “bom rapaz” – Onde é que isto vai dar...
Se é muito simpático – Não irá muito longe
Se é antipático – É insuportável
Se fuma – É um viciado
Se não fuma – Não é homem…
Se canta mal – É tema para piadas
Se canta bem – É um vaidoso; quer chamar a atenção
Se demora na homilia – É um chato, nunca mais acaba
Se fala pouco – não se preparou como deve ser
Se é amável – Não tem carácter
Se é tranquilo – Querem-no com mais nervo, com mais vida
Se é generoso – É um esbanjador
Se é muito activo – É precipitado, falta-lhe experiência
Se é poupado – É avarento, agarrado.
Se sai à rua – Nunca está na Igreja
Se não sai – Não convive com ninguém
Se está com os pobres – Queixam-se e desprezam-no os ricos
Se está com os ricos – Queixam-se os pobres, que se sentem à margem.
Se trata mais com os homens – Queixam-se as mulheres e é...
Se trata mais com as mulheres – É objecto de maledicência e...
Se dá preferência às crianças – Os mais velhos interrogam-se…
Se toca algum instrumento musical – É dissipado e liberal
Se vai assistir a um jogo de futebol – É um escândalo. Deveria estar na Igreja!
Se nunca participa de um desporto – É um antiquado e anti-desportivo.
Se ...
E nós... como o queremos?
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2012-07-31
Maré baixa
JOÃO CÉSAR DAS NEVES, DN 2012-07-30
Na grave recessão produtiva, como é normal, ouvem-se muitas tolices e contradições. A real situação económica nacional é muito mais simples e até favorável do que se dá a entender.
A situação financeira, que domina as atenções, evolui bem, como tinha acontecido nos anteriores programas do FMI. Hoje, como em 1978 e 1983, a cura está a ser rápida, com a balança de pagamentos a equilibrar em pouco tempo. E, tal como antigamente, o esforço vem quase todo da economia privada. Aliás, nos dois casos anteriores o défice público até piorou. Se desta vez der uma ajudinha, não será nada mau. Entretanto, como há 30 anos, os intelectuais e comentadores fazem tudo para sabotar o ajustamento. A coisa tem mais graça por os papéis estarem invertidos: há 30 anos a esquerda aplicava a austeridade e a direita protestava.
O episódio financeiro, embora importante, é secundário pois é no lado produtivo que se joga o futuro. Aí as coisas estão a acontecer ainda mais depressa. Prova disso é que, comparando com o segundo trimestre de 2008, início da crise mundial, o emprego português caiu 10% e o investimento 32%. Isto mostra como a primeira fase está a decorrer depressa.
É verdade que para a maioria dos comentadores são estes os sinais invocados para dizer que "a receita não funciona". Isso explica-se porque eles não falam de economia, mas daquela ficção sóciopecuniária que alimenta a vida político-mediática. Segundo tais falácias, a receita seria adequada se o doente saísse milagrosamente da cama, como um super-herói, sem tratamento nem dor. Após 20 anos de disparates monstruosos, que essa ficção gerou e todos os economistas denunciaram, isso é impossível. Aliás, se as previsões da troika se verificarem, a coisa até nos sairá barata. Para entender isto é preciso compreender os verdadeiros contornos da situação.
A base do problema económico é a mesmo do financeiro: o crédito barato que, além da enorme dívida, também distorceu o sector produtivo. A enxurrada de dinheiro externo funcionou como uma maré alta que abriu temporariamente novas áreas aos animais marinhos. Múltiplas empresas e empregos, em todos os sectores, nasceram e prosperaram artificialmente graças à aparente prosperidade. Mexilhões, percebes, lapas, ameijoas, e até sardinhas aproveitaram este alargamento da margem de manobra. A zona mais beneficiada foi à volta do Estado e seus negócios protegidos, mas afectou toda a actividade nacional. A maré quando sobe é para todos. Foram tempos de facilidades.
Os números nunca mentiram acerca da fragilidade da situação, e o crescimento económico foi anémico desde 2000. Nessas zonas ribeirinhas, por vezes turvas, não é possível alimentar grandes peixes. Só marisco miúdo. Por outro lado, não se deve exagerar o efeito da tolice, pois a maré alta pouco afecta o resto do mar. Nas águas profundas e seguras a rica fauna económica permaneceu e permanece.
Um dia, como era fatal, a maré tinha de descer. Aliás, inicialmente até cai abaixo do normal para compensar os excessos anteriores. É isso que agora afecta toda a economia, temporariamente apertada em águas demasiado recuadas. Mas nas zonas marginais, que a ilusão mantivera férteis, tudo secou. Aí não há escolha: é urgente desmantelar empresas e empregos, só rentáveis graças ao dinheiro fácil, para os transportar para regiões mais profundas e produtivas.
Isso não é nada fácil, e ainda demorará bastante tempo, pois são erros de 20 anos. Muito boa gente passou grande parte da carreira nessas zonas sempre insustentáveis, agora desertas. Elas voltarão a ser colonizadas, mas só daqui a anos, quando o crescimento económico permitir reocupar as áreas mais elevadas com solidez.
Nesta reestruturação económica a política pouco pode fazer. Ao menos não estrague. O Estado, que promoveu o problema com os seus diques e canos, teria um papel importante desmantelando-os. Mas a conversa das reformas estruturais e liberalização, hoje, como há 30 anos, tem poucos resultados. Felizmente, a economia continua a ajustar rapidamente.
naohaalmocosgratis@ucp.pt
Na grave recessão produtiva, como é normal, ouvem-se muitas tolices e contradições. A real situação económica nacional é muito mais simples e até favorável do que se dá a entender.
A situação financeira, que domina as atenções, evolui bem, como tinha acontecido nos anteriores programas do FMI. Hoje, como em 1978 e 1983, a cura está a ser rápida, com a balança de pagamentos a equilibrar em pouco tempo. E, tal como antigamente, o esforço vem quase todo da economia privada. Aliás, nos dois casos anteriores o défice público até piorou. Se desta vez der uma ajudinha, não será nada mau. Entretanto, como há 30 anos, os intelectuais e comentadores fazem tudo para sabotar o ajustamento. A coisa tem mais graça por os papéis estarem invertidos: há 30 anos a esquerda aplicava a austeridade e a direita protestava.
O episódio financeiro, embora importante, é secundário pois é no lado produtivo que se joga o futuro. Aí as coisas estão a acontecer ainda mais depressa. Prova disso é que, comparando com o segundo trimestre de 2008, início da crise mundial, o emprego português caiu 10% e o investimento 32%. Isto mostra como a primeira fase está a decorrer depressa.
É verdade que para a maioria dos comentadores são estes os sinais invocados para dizer que "a receita não funciona". Isso explica-se porque eles não falam de economia, mas daquela ficção sóciopecuniária que alimenta a vida político-mediática. Segundo tais falácias, a receita seria adequada se o doente saísse milagrosamente da cama, como um super-herói, sem tratamento nem dor. Após 20 anos de disparates monstruosos, que essa ficção gerou e todos os economistas denunciaram, isso é impossível. Aliás, se as previsões da troika se verificarem, a coisa até nos sairá barata. Para entender isto é preciso compreender os verdadeiros contornos da situação.
A base do problema económico é a mesmo do financeiro: o crédito barato que, além da enorme dívida, também distorceu o sector produtivo. A enxurrada de dinheiro externo funcionou como uma maré alta que abriu temporariamente novas áreas aos animais marinhos. Múltiplas empresas e empregos, em todos os sectores, nasceram e prosperaram artificialmente graças à aparente prosperidade. Mexilhões, percebes, lapas, ameijoas, e até sardinhas aproveitaram este alargamento da margem de manobra. A zona mais beneficiada foi à volta do Estado e seus negócios protegidos, mas afectou toda a actividade nacional. A maré quando sobe é para todos. Foram tempos de facilidades.
Os números nunca mentiram acerca da fragilidade da situação, e o crescimento económico foi anémico desde 2000. Nessas zonas ribeirinhas, por vezes turvas, não é possível alimentar grandes peixes. Só marisco miúdo. Por outro lado, não se deve exagerar o efeito da tolice, pois a maré alta pouco afecta o resto do mar. Nas águas profundas e seguras a rica fauna económica permaneceu e permanece.
Um dia, como era fatal, a maré tinha de descer. Aliás, inicialmente até cai abaixo do normal para compensar os excessos anteriores. É isso que agora afecta toda a economia, temporariamente apertada em águas demasiado recuadas. Mas nas zonas marginais, que a ilusão mantivera férteis, tudo secou. Aí não há escolha: é urgente desmantelar empresas e empregos, só rentáveis graças ao dinheiro fácil, para os transportar para regiões mais profundas e produtivas.
Isso não é nada fácil, e ainda demorará bastante tempo, pois são erros de 20 anos. Muito boa gente passou grande parte da carreira nessas zonas sempre insustentáveis, agora desertas. Elas voltarão a ser colonizadas, mas só daqui a anos, quando o crescimento económico permitir reocupar as áreas mais elevadas com solidez.
Nesta reestruturação económica a política pouco pode fazer. Ao menos não estrague. O Estado, que promoveu o problema com os seus diques e canos, teria um papel importante desmantelando-os. Mas a conversa das reformas estruturais e liberalização, hoje, como há 30 anos, tem poucos resultados. Felizmente, a economia continua a ajustar rapidamente.
naohaalmocosgratis@ucp.pt
2012-07-28
O apocalipse do sentido
Por José Luís Nunes Martins, Investigador, publicado em 28 Jul 2012
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema
·Existe hoje um problema que atinge as fundações da sociedade em que vivemos que cresce de forma quase irrevogável, como uma espécie de tumor, e que muito em breve destruirá um dos mais importantes pilares da nossa essência colectiva: falta de fertilidade.
No mundo de hoje há cada vez menos tempo, espaço e, principalmente, vontade de criar o novo. De construir sentidos para a vida. Consomem-se de forma capitalista os poucos sentidos pré--fabricados à disposição. As pessoas são muito parecidas... cinzentas – cada vez mais do mesmo tom de cinza –, cor do que já se consumiu, do que se desfez, daquilo que já não está aqui. A morte não é negra: é cinza.
A degeneração da capacidade criativa do homem de hoje, quando se trata de construir novos e bons caminhos para a sua vida, afecta a base do que (não) somos hoje enquanto grupo.
Esta decadência terá começado nos anos 60 do século passado, quando toda uma geração começou a imaginar um mundo em que ninguém faz nada e onde tudo é agradável. Este sonho gerou e alimentou a ideia de que a felicidade nascerá da inércia preguiçosa e infantil de quem quer um mundo melhor, mas que tudo o que está disposto a fazer por isso é reclamar... birras à espera do bem bom. Queriam um mundo melhor, mas não o criaram. Ergueram cartazes e sentaram-se à espera; no tempo que passou, evadiram-se daqui das mais variadas formas... alienaram-se, tornaram-se estranhos a este mundo. Diziam que eram sonhadores...
Esta absurdidade alastrou a um ritmo assustador e fará com que, dentro de poucos anos, não haja quem dê valor a uma obra de arte. A bondade do único, a singularidade, será vista como uma anormalidade e, enquanto tal, um crime hediondo contra a massa. Um atentado contra a tirânica reprodução do igual.
O mundo é hoje como um mar de preguiçosos conformados e orgulhosos das suas frustrações. Definhando ao estonteante ritmo do zapping entre canais de várias formas de anúncios que prometem felicidades instantâneas. Sempre fugas.
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema. Os mercados só sabem gerir massas. Um homem livre é, neste enquadramento, um terrorista. São cada vez menos aqueles que, contra a esmagadora maioria, se distinguem através da sua capacidade de dar sentido e significado à vida. Estes criadores não reprodutores desafiam a multidão com as suas obras subversivas, fogem a normas e a modas, parecem voar, porque flutuam bem acima do lodo onde os outros, como mortos, vivem.
No apocalipse do sentido da vida que se pressente há, felizmente, este pequeno número de homens que não se rendem, poetas da existência: são aqueles que dão luz e cores ao mundo, que fertilizam a humanidade através dos seus trabalhos. Vão estendendo a mão a quem respira podridão, sem muitos sucessos, quase nenhuns... Mas a obra-prima destes artistas é inspirarem outros a serem absolutamente originais. Longe do êxodo das gentes para o nada. Afinal, a mais sublime das obras de arte é a criação de um artista.
Estes fundadores navegam, sem raízes, em pequenos barcos sem âncora, flutuando neste mar cinzento, entregando-se à missão de garantir que haverá vida humana depois da morte desta humanidade. Contam apenas com a sua arte e com a generosidade do senhor dos ventos. Rumo a um futuro puro, onde cada homem sabe que deve criar o sentido da sua própria vida. A fim de que cada um de nós seja, nessa altura, uma obra de arte original. Uma criatura criadora. Uma bondade generosa. Uma fonte de vida. Uma criação.
Deus ajude e inspire quem Lhe segue o exemplo.
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema
·Existe hoje um problema que atinge as fundações da sociedade em que vivemos que cresce de forma quase irrevogável, como uma espécie de tumor, e que muito em breve destruirá um dos mais importantes pilares da nossa essência colectiva: falta de fertilidade.
No mundo de hoje há cada vez menos tempo, espaço e, principalmente, vontade de criar o novo. De construir sentidos para a vida. Consomem-se de forma capitalista os poucos sentidos pré--fabricados à disposição. As pessoas são muito parecidas... cinzentas – cada vez mais do mesmo tom de cinza –, cor do que já se consumiu, do que se desfez, daquilo que já não está aqui. A morte não é negra: é cinza.
A degeneração da capacidade criativa do homem de hoje, quando se trata de construir novos e bons caminhos para a sua vida, afecta a base do que (não) somos hoje enquanto grupo.
Esta decadência terá começado nos anos 60 do século passado, quando toda uma geração começou a imaginar um mundo em que ninguém faz nada e onde tudo é agradável. Este sonho gerou e alimentou a ideia de que a felicidade nascerá da inércia preguiçosa e infantil de quem quer um mundo melhor, mas que tudo o que está disposto a fazer por isso é reclamar... birras à espera do bem bom. Queriam um mundo melhor, mas não o criaram. Ergueram cartazes e sentaram-se à espera; no tempo que passou, evadiram-se daqui das mais variadas formas... alienaram-se, tornaram-se estranhos a este mundo. Diziam que eram sonhadores...
Esta absurdidade alastrou a um ritmo assustador e fará com que, dentro de poucos anos, não haja quem dê valor a uma obra de arte. A bondade do único, a singularidade, será vista como uma anormalidade e, enquanto tal, um crime hediondo contra a massa. Um atentado contra a tirânica reprodução do igual.
O mundo é hoje como um mar de preguiçosos conformados e orgulhosos das suas frustrações. Definhando ao estonteante ritmo do zapping entre canais de várias formas de anúncios que prometem felicidades instantâneas. Sempre fugas.
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema. Os mercados só sabem gerir massas. Um homem livre é, neste enquadramento, um terrorista. São cada vez menos aqueles que, contra a esmagadora maioria, se distinguem através da sua capacidade de dar sentido e significado à vida. Estes criadores não reprodutores desafiam a multidão com as suas obras subversivas, fogem a normas e a modas, parecem voar, porque flutuam bem acima do lodo onde os outros, como mortos, vivem.
No apocalipse do sentido da vida que se pressente há, felizmente, este pequeno número de homens que não se rendem, poetas da existência: são aqueles que dão luz e cores ao mundo, que fertilizam a humanidade através dos seus trabalhos. Vão estendendo a mão a quem respira podridão, sem muitos sucessos, quase nenhuns... Mas a obra-prima destes artistas é inspirarem outros a serem absolutamente originais. Longe do êxodo das gentes para o nada. Afinal, a mais sublime das obras de arte é a criação de um artista.
Estes fundadores navegam, sem raízes, em pequenos barcos sem âncora, flutuando neste mar cinzento, entregando-se à missão de garantir que haverá vida humana depois da morte desta humanidade. Contam apenas com a sua arte e com a generosidade do senhor dos ventos. Rumo a um futuro puro, onde cada homem sabe que deve criar o sentido da sua própria vida. A fim de que cada um de nós seja, nessa altura, uma obra de arte original. Uma criatura criadora. Uma bondade generosa. Uma fonte de vida. Uma criação.
Deus ajude e inspire quem Lhe segue o exemplo.
2012-07-22
Qualquer que seja o caminho...
Qualquer que seja o caminho que nos percorramos, há sempre algo de invulgar que nos aguarda. Nenhum caminho é sempre direito, há curvas em todo o lado, e o que está por detrás delas é-nos desconhecido.
De momento, parece que na próxima curva do meu caminho está a escola da Vila das Flores, mas quem sabe se não estarão lá as aventuras com que sempre sonhei. Se não encontrarei a montanha que eu queria subir, ou a terra com as palmeiras onde os pássaros são mais coloridos do que aqui.
Talvez digas que tudo isto são apenas sonhos, e que eu em breve perceberei que na Vila das Flores o meu horizonte depressa se estreitará. Mas eu não acredito nisso! O meu horizonte vai ser sempre claro e largo, como o horizonte que o mar deixa abarcar.
Só as pessoas que não sabem sonhar têm horizontes estreitos. Quem sabe sonhar e tem olhos para o que é belo, nunca se sentirá infeliz! Por isso, eu acredito que serei sempre tão feliz como agora sou.
Porque a Ana Silvestre nunca poderia ser tão feliz em lado algum como no Frontão Verde
Obrigado Frontão Verde, por me teres feito tão feliz!
-- Ana Silvestre (dos cabelos ruivos)
Dedicado à Joana (dos cabelos morenos), no dia do nosso aniversário :)
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